Envelhecimento e o Cinema

O Cinema sempre me pareceu uma das artes mais envolventes, instigantes e provocadoras. Obviamente me não me refiro a blockbusters, histórias de super heróis e produtos mais comerciais. Estes têm seu valor como entretenimento, mas podem ser esquecidos quando as luzes se acendem. Já as obras de grandes diretores, mudam nossa forma de ver a vida.

Não é de hoje que o Cinema lança suas luzes sobre o envelhecimento. Também é curioso perceber como a Sétima Arte foi modelando seu discurso para tratar um assunto tão complexo. São várias as abordagens, desde as mais românticas, até as realistas que o púbico engole seco.

Não é difícil fazer listas. Aliás, tem gente especialista no assunto. Mas fiz uma relação própria dos filmes que mais me impressionaram sobre o tema. Vez por outra, revejo alguns filmes ou incluo títulos novos.

Devo adiantar que a minha lista é conduzida pelos diretores, principalmente. Para começar a conversa, “Morangos Silvestres” (1957), de Ingmar Bergman, é uma aula de Cinema em todos os aspectos, técnicos e artísticos. Resumidamente é a história de um velho professor que revisita vários momentos importantes do seu passado durante uma viagem.

A Balada de Narayama” (1958), de Keisuke Kinoshita,  mostra a tradição de um antigo povoado rural japonês onde os idosos que atingiam a idade de 70 anos eram abandonados para morrer.  O filme revela o melhor e o pior da natureza humana. Há uma segunda versão, de 1983, do diretor de Shohei Imamura. Ambas são memoráveis.

O enredo de “Ensina-me a viver” teve várias versões no teatro e chegou aos cinemas em 1971, sob a direção de Hal Ashby. Um relacionamento improvável entre Maud, de 79 anos, e Harold, um jovem obcecado pela morte, transforma os dois e, dificilmente,  a audiência fica indiferente.

“Num lago dourado” (1981), de Mark Rydell, tem lugar especial na minha memória. Fala do reencontro de pai e filha. Um elenco estelar (Henri Fonda, Katherine Hepburn e Jane Fonda) já é garantia de densidade nas interpretações.

“Os vivos e os Mortos” (1987) foi o último filme dirigido por um John Huston, famoso pelos filmes da época de ouro de Hollywood. Com a saúde seriamente comprometida e de carreira de rodas, o diretor partiu de um conto do livro Os Dublinenses, de James Joyce, para falar sobre nostalgia e perdas. Angelica Houston, filha do diretor, tem uma de suas melhores performances como atriz.

O diretor David Lynch é conhecido por suas histórias bizarras, mas em “Uma história real” (1999) narra a trajetória de Alvin, um homem de 73 anos que viaja 300 km, num cortador de grama, para visitar um irmão e resolver pendências do passado. É uma viagem intimista que impressiona pelo lirismo.

“As invasões bárbaras” (2003), de Denys Arcand, é um sopro de bom humor e ironia.  À beira da morte e com dificuldades em aceitar seu passado, Rémy quer encontrar finalmente a paz e, para isso,  reúne seu filho ausente, sua ex-mulher e velhos amigos. Prepare-se para boas risadas e muitas reflexões sobre a vida.

Em “O amor não tem fim” (2011), de Julie Graas, Adam (William Hurt) e Mary (Isabella Rossellini) formam um casal há 30 anos. Sem os filhos em casa, eles estão em uma fase calma da vida. No entanto, o envelhecimento de ambos, vai dificultando o relacionamento do casal.

 “Amor” (2012), de Michael Haneke, é um retrato duro do envelhecimento de um casal, Anne e Georges, agravado por uma doença grave. O diretor discute o sentido da vida e da morte. O filme é pesado, mas rende boas conversas.

Anthony Hopkins é um ator que sempre nos surpreende por suas performances, não importa o gênero de filme em que atua. Mas em “Meu Pai” (2020), com a direção de Florian Zeller, Hopkins impressiona. Seu desempenho é avassalador ao mostrar um homem senil que enfrenta dificuldades em seu dia a dia. O diretor nos conduz para sentir o mundo de Anthony, conduzido por lapsos de memória e dúvidas sobre o que está acontecendo ao seu redor.

Para terminar, uma série: “O Método Kominsky” que fala da vida do professor de teatro Sandy Kominsky e seu agente/melhor amigo Norman Newlander. Eles enfrentam as alegrias e tristezas da velhice com muito humor. Imperdível.

 

 

 

 

 

 

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Roberto Junior Monteiro, 63 anos, é jornalista e atua em jornalismo rural. Seus interesses passeiam por áreas diversas: Botânica, Cinema, Yoga, Meditação, Música, Desenho e Línguas. Ultimamente tem se dedicado a refletir sobre os desafios do envelhecimento.E-mail: rjrmonteiro@hotmail.com

* Todo o teor textual e de imagens publicados nesta coluna são responsabilidade deste colunista.

 

 

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