Tônia Carrero foi uma das personalidades mais interessantes que já passou por aqui. Atriz, de uma beleza incomum e talento inquestionável, fez parte da história do teatro, da TV e do cinema brasileiros. Teve destaque em alguns momentos da história nacional. Em 1968 estava na linha de frente da passeata contra a censura durante a ditadura militar, a “Passeata dos 100 Mil”.
Pouca gente sabe, mas Tônia Carrero foi a inspiração para a efígie de 50 moedas diferentes, lançadas pela Casa da Moeda, entre 1965 e 1978. Reza a lenda que, durante uma cerimônia num teatro londrino, a beleza de Tônia teria ofuscado até mesmo a presença da rainha Elizabeth.
Sem hipocrisia
Por um bom tempo o público viu em Tônia Carrero um ideal clássico de beleza. Ela nunca negou que seus recursos físicos lhe abriram portas, mas não se restringiu ao estereótipo de mulher bonita. Ao longo de sua carreira fez trabalhos nos quais se apresentava de maneira despojada, longe da imagem sofisticada à qual a audiência se acostumara.
Tônia nunca foi hipócrita e, vez por outra, lançava pérolas inimagináveis em tempos de redes sociais. Numa entrevista, certa vez, perguntada a respeito do que havia aprendido com a velhice, tascou: “o inferno existe”. Certamente ela estava se referindo às dificuldades que enfrentava com sua saúde. A atriz teve uma doença, hidrocefalia oculta, que causou sérios problemas. No final da vida, Tônia não conseguia andar, nem falar. Ela morreu aos 95 anos, em 2018.
É verdade, o inferno existe e pode ser traduzido pela falta de saúde, a perda de autonomia e da memória. Um dos grandes medos de muita gente é o risco de sofrer com demências na velhice. Por mais cuidados que tenhamos, esse quadro pode se instalar por condições genéticas, ambientais e neurobiológicas, contra as quais há pouco ou nada a fazer.
Diminuindo Riscos
Porém, nem tudo está perdido. Um estudo do The Lancet Commission on Dementia, mostra que há pelo menos 16 fatores de risco passíveis de modificação, para prevenir ou retardar a instalação dos quadros demenciais.
São eles: 1) traumatismos cerebrais; 2) depressão; 3) perda de audição; 4) perda da visão; 5) diabetes; 6) distúrbios do sono; 7) hipertensão arterial; 8) colesterol elevado; 9) doenças cardiovasculares; 10) hospitalizações por doenças infecciosas; 11) obesidade; 12) fumo; 13) consumo de álcool; 14) baixo nível educacional; 15) sedentarismo; e 16) isolamento social.
A pesquisa é resultado de um inquérito populacional dinamarquês que avaliou a interação entre esses fatores em todos os habitantes do país nascidos em 1957 ou antes dessa data —portanto, com 70 anos de idade ou mais. No total, foram acompanhadas mais de 1,7 milhão de pessoas que não apresentavam demência, número que torna esse estudo o mais completo já realizado.
Como se pode observar, nossos hábitos podem influenciar muitos desses fatores. É impossível ter controle sobre tudo. Mas, se podemos colaborar para um bom estado de saúde, por que não?
Não fazer nada significa aceitar, com resignação, um desígnio superior que decreta o castigo de viver no “inferno” descrito por Tônia Carrero. Então, o jeito é diminuir as chances desse risco, mantendo sob controle fatores que, comprovadamente, podem comprometer nossa saúde.





