Livro mostra os pecados da indústria alimentícia

Já escrevi nesta coluna sobre o quanto os alimentos ultraprocessados (AUPs) são nocivos. Mas volto ao assunto porque é extremamente necessário. Quem ainda sofre do complexo de vira-lata, aquele que desvaloriza tudo o que é nacional, deve ler o livro “Gente Ultraprocessada”, de Chris van Tulleken. O médico inglês escreveu um dos livros mais completos sobre Alimentos Ultraprocessados (AUPS), mostrando a realidade nua e crua da indústria alimentícia.

E, pasmem, a obra é baseada na hipótese, confirmada, de Carlos Monteiro e do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde (Nupens) da Universidade de São Paulo. A ideia é que esse grupo alimentício é responsável pela explosão nos índices de doenças crônicas associadas à nutrição. Foi a primeira vez no mundo que uma pesquisa do gênero foi desenvolvida. Não à toa o trabalho foi feito no Brasil. Instituições públicas tomaram a frente do estudo, livre da pressão dos lobbies das indústrias, o que é praticamente impossível lá fora.

Além de conversar com médicos e apresentar números de diversas pesquisas, o autor conversa com profissionais da indústria e engenheiros de alimentos que falam sobre o papel dos aditivos alimentares, além de explorar as descobertas da ciência sobre como o organismo interpreta essas substâncias. Já que a saúde é construída por hábitos, sobretudo os alimentares, livrar-se desses produtos é urgente.

Hoje sabe-se que adoçantes e intensificadores de sabor, por exemplo, provocam um “descompasso entre gosto e nutrição passível de ser prejudicial”, diz o autor do livro. Um estudo de 2007, financiado pela Agência de normas alimentares do Reino Unido, ofereceu a um grupo de 300 crianças, seis corantes e um conservante ou um placebo. Aquelas que tomaram as bebidas intensificadas com aditivos tiveram pontuação mais alta de hiperatividade do que as que consumiram placebo. O tema preocupa porque, de acordo com o autor, na União Europeia mais de dois mil aditivos são autorizados, nos EUA acredita-se que sejam mais de dez mil.

Uma das substâncias semelhantes a emulsificantes mais famosa é o ácido perfluorooctanoico ou PFOA, da Dupont, que se acumula em qualquer organismo que o consuma. De acordo com um relatório de 2016, feito pela Agência de Proteção Ambiental dos EUA, o PFOA está associado a colesterol alto, enzimas hepáticas elevadas, resposta reduzida a vacinação, defeitos congênitos, hipertensão gestacional e câncer de testículos.

Durante décadas a Dupont descartou o PFOA no rio Ohio, nos anos 50, contaminando a água potável de mais de cem mil pessoas, próximo da fábrica da Washington Works, na Virgínia Ocidental. Estudos conduzidos pela Dupont revelaram que o aditivo causou canceres e defeitos congênitos em animais e filhos de alguns de seus funcionários.

Chris van Tulleken ensina que os AUPs costumam ser deficientes em micronutrientes, o que também pode levar ao consumo em excesso. Emulsificantes, conservantes, amidos modificados e outros aditivos prejudicam o microbioma, o que pode permitir que bactérias inflamatórias floresçam e provoquem vazamentos no intestino. Outros aditivos podem afetar as funções cerebrais e endócrinas, e o plástico das embalagens pode afetar a fertilidade.

Talvez pareça que para os 60+ seja tarde demais para se livrar dos ultraprocessados. Porém, investir em uma alimentação mais natural é como deixar de fumar ou consumir álcool. Sempre vai fazer diferença. O jeito é ser mais seletivo quando você estiver no supermercado escolhendo o que levar para casa.  Leia mais em “Gente Ultraprocessada”, Chris van Tulleken, Editora Elefante.

 

 

 

 

Viver Melhor 60+
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Roberto Junior Monteiro, 63 anos, é jornalista e atua em jornalismo rural. Seus interesses passeiam por áreas diversas: Botânica, Cinema, Yoga, Meditação, Música, Desenho e Línguas. Ultimamente tem se dedicado a refletir sobre os desafios do envelhecimento.E-mail: rjrmonteiro@hotmail.com

* Todo o teor textual e de imagens publicados nesta coluna são responsabilidade deste colunista.

 

 

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