Por Patrícia Ecave para a Coluna O Mundo em Taças
Curitiba teve o privilégio de receber um elegante evento dedicado à degustação de vinhos gregos da região de Drama, ao norte da Grécia. Os rótulos apresentados foram da prestigiada vinícola Estates Costa Lazaridi, um dos pilares mais importantes da viticultura moderna no país e uma das principais referências mundiais na produção contemporânea de alta qualidade. Longe de ser uma novidade passageira, o mercado de rótulos helênicos encontra-se em plena consolidação na capital paranaense: a Kos Vinhos Especiais já realiza um trabalho pioneiro e consistente de difusão dessa cultura na cidade há uma década.
A importância do setor no cenário global é expressiva. Segundo relatórios da OIV (Organização Internacional da Vinha e do Vinho), a produção anual da Grécia situa-se entre 1,4 e 1,8 milhão de hectolitros, unindo volume a um rigoroso controle de origem. O coração da Estates Costa Lazaridi bate em Drama, região com uma tradição vinícola que remonta a milhares de anos e fortemente ligada ao culto a Dionísio, o deus do vinho. Os vinhedos estendem-se por mais de 280 hectares, divididos em quatro microrregiões: Adriani, Kali Vrysi, Katafyto e Platania. Protegidas por três grandes cadeias de montanhas (Falakro, Menikio e Pangaio), as videiras desfrutam de um microclima ideal, caracterizado por dias quentes e noites frescas que preservam a acidez natural das uvas.
Os convidados foram recebidos no restaurante Porcini Trattoria por Antony Nemea, export manager da vinícola. Ele destacou o trabalho minucioso para oferecer rótulos de alta qualidade que representem fielmente o terroir local. Nemea explicou ainda que a Costa Lazaridi mudou recentemente seu nome para Estates Costa Lazaridi, reforçando o conceito global de produção feita 100% em propriedade (estate). Os vinhos chegam ao mercado brasileiro através da parceria de dez anos entre a GRK Vinhos e a Kos Vinhos Especiais. Curiosamente, a chegada desses rótulos ao Brasil não ocorreu em busca de colônias de imigrantes conterrâneos, mas sim pelo pioneirismo do proprietário da GRFK, que se encantou com a qualidade ao provar os vinhos na Grécia e decidiu apostar no mercado nacional.

A Experiência dos Mezedes e Clássicos do Mar
As apresentações foram conduzidas com maestria por Nelson Loureiro Alves e Simone Vivan, da KOS, que compartilharam fatos fascinantes sobre o país, destacando que a Grécia é um verdadeiro patrimônio genético mundial, possuindo aproximadamente 300 castas nativas (autóctones).
Para Fábio Pereira, sócio-fundador do Porcini Trattoria, a noite foi a oportunidade ideal de celebrar os costumes da cultura grega, reunindo os convidados em uma grande mesa ao redor da culinária mediterrânea. O menu reproduziu a autêntica dinâmica das tabernas gregas com uma fartura de Mezedes — pequenos pratos ricos em sabor feitos para compartilhar no centro da mesa.

O banquete começou com uma seleção de pastas gregas tradicionais (o cremoso Tzatziki, feito de iogurte com pepino, além de homus e pasta de berinjela defumada), acompanhado por pães de fermentação natural. Na sequência, foram servidas bruschettas de bacalhau, seguidas por clássicos das ilhas helênicas: Marida Tiganiti (manjubinha frita crocante, petisco obrigatório no litoral grego), lula frita, um aromático polvo regado no azeite de oliva extra virgem com cebolas e limão siciliano e uma salada vibrante com ingredientes que são cortados em pedaços grandes e irregulares (em cubos ou meia-lua), criando um visual rústico, natural e colorido, um verdadeiro mosaico mediterrâneo que enche os olhos antes mesmo da primeira garfada.
Nos pratos principais de resistência, o Porcini trouxe o conforto das panelas gregas: um Kritharaki me Kima (o tradicional Orzo, massa curta em formato de grão de arroz, cozido lentamente em um rico molho de carne desfiada e especiarias) e a icônica paleta de cordeiro assada com batatas, carne que simboliza a celebração e a hospitalidade na Grécia.
As Estrelas da Noite: Os Cinco Rótulos Degustados
A harmonização seguiu uma sequência cuidadosamente selecionada para apresentar a versatilidade das uvas locais e internacionais adaptadas ao norte grego:

- Costa Lazaridi Malagousia Vintage Single Vineyard (2025): 100% Malagousia (casta branca autóctone resgatada da extinção). Vinho elegante, de cor verde-amarelada brilhante. No nariz, exibe notas vegetais, flores brancas e frutas de polpa branca (pêssego e damasco). Em boca, é redondo, cheio e equilibrado por uma acidez refrescante, com final longo e frutado.

- Costa Lazaridi Rosé Vintage Single Vineyard (2025): Blend de Merlot (60%), Agiorgitiko (20%) e Grenache (20%). Um rosé de estilo aristocrático e refinado, inspirado no padrão de Provence, com coloração salmão clara. Apresenta nariz vivo de frutas vermelhas frescas (morango e cereja), toques cítricos de casca de limão e uma sutil nuance de especiarias. É leve, refrescante e com excelente acidez.

- Chateau Julia Assyrtiko (2025): 100% Assyrtiko (uma das uvas brancas mais nobres, potentes e icônicas da Grécia). Integrante da linha que homenageia a esposa do fundador, é um branco seco de perfil moderno e pureza mineral única. O bouquet exibe camomila, flor de limoeiro e o clássico toque mineral de pederneira (flint). No paladar é encorpado, vibrante, com uma acidez cortante e final cítrico persistente.

- Chateau Julia Agiorgitiko (2024): 100% Agiorgitiko (a uva tinta autóctone mais plantada no país). Passa por cerca de 12 meses de amadurecimento em barricas de carvalho francês e tanques de concreto. De cor rubi intensa, traz aromas dominados por frutas vermelhas e escuras (morango, cereja, framboesa e amora), acompanhados por notas de especiarias doces. O corpo é refinado e sedoso, com taninos aveludados e acidez equilibrada.

- Costa Lazaridi Syrah Vintage Single Vineyard (2023): 100% Syrah. Um tinto potente e longevo, que amadurece por 12 meses em barricas de carvalho francês. De cor vermelho-escura quase impenetrável, evolui em camadas de violetas, mirtilos, groselha preta, azeitonas, pimenta preta e chocolate amargo. No paladar é caloroso, denso e generoso, com final longo e especiado.
Para finalizar a noite com sofisticação, a sobremesa servida foi um sorvete de gorgonzola com morangos frescos, finalizado com um raríssimo vinagre balsâmico grego com 10 anos de envelhecimento pelo processo de soleira. A receita foi trazida pelo próprio Fábio Pereira de sua última visita a Florença, na Itália, fechando com perfeição uma noite de pura imersão cultural, gastronômica e histórica.

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Fotos: Arthur Franco.







