A Máfia deixou de se sentar à mesa

Entre o fascínio do cinema e o peso da história, uma rede de restaurantes espanhola muda de nome e põe à mesa os limites da liberdade de criar uma marca.

Uma rosa vermelha, letras brancas e um fundo preto podiam anunciar um romance. No antigo logotipo da rede espanhola “La Mafia se sienta a la mesa”, acompanhavam um convite para jantar. A combinação aproveitava um imaginário que o cinema ajudou a tornar familiar: italianidade, comida e uma família com métodos bastante particulares para resolver divergências.

Para quem chegava pensando em O Poderoso Chefão, era possível compreender a brincadeira sem imaginar que o gerente participasse de alguma organização criminosa. O restaurante oferecia uma experiência gastronômica, e o nome ajudava a criar a atmosfera antes mesmo de a primeira massa chegar. Uma associação fácil de reconhecer e, justamente por isso, comercialmente atraente.

Nem é preciso atravessar o Atlântico para entender o apelo. Em Porto Alegre, a Capone Drinkeria convida o público a entrar na atmosfera dos bares da Lei Seca, com iluminação baixa e coquetéis. O nome ajuda a compor o cenário; dá para pedir um drinque sem esperar que o barman cobre uma dívida antiga da família. Esse repertório, alimentado pelo cinema, permite que o cliente reconheça a proposta antes de abrir o cardápio.

Coquetel com gelo e ramo de alecrim, em um copo alto sobre uma mesa, com fundo escuro.
As referências aos bares da Lei Seca ajudam a criar uma atmosfera que o cliente reconhece antes mesmo de abrir a carta de drinques. Foto: Teresa Jang/Pexels. Imagem ilustrativa.

A rede espanhola “La Mafia” nasceu em Zaragoza, em 2000. Segundo seus fundadores, a inspiração veio de um livro de receitas que receberam de presente. Ao longo de mais de duas décadas, o projeto ganhou dezenas de restaurantes e franqueados que passaram a investir naquela identidade. A essa altura, havia muito mais trabalho acumulado no nome do que a escolha inicial de uma referência curiosa.

Só que o Estado italiano não estava vendo o mesmo filme. Para a Itália, a palavra remetia a uma criminalidade real, responsável por violência e intimidação, com vítimas e famílias que não podiam encerrar aquela experiência desligando a televisão. A transformação dessa história em ambiente agradável para comer era precisamente o que tornava a associação incômoda.

É uma diferença que merece atenção antes de ser despachada como falta de humor. Quem conhece a máfia sobretudo pela ficção consegue separar o fascínio pelos personagens da reprovação de seus crimes. Para quem conviveu com suas consequências, encontrar o nome na fachada de um restaurante pode exigir uma separação bem menos confortável.

Um nome também precisa funcionar fora do filme

Em 2018, o Tribunal Geral da União Europeia confirmou que aquela marca não poderia continuar protegida no sistema europeu. O nome de uma organização criminosa, acompanhado de elementos convidativos, esbarrava nos valores que o próprio sistema jurídico deveria preservar. A objeção italiana encontrou, portanto, uma consequência concreta no patrimônio da empresa.

Em 2026, a autoridade espanhola de marcas também acolheu o pedido da Itália contra o registro nacional, decisão que a empresa contestou. Perder a proteção da marca não significava, por si só, receber uma ordem para trocar imediatamente todas as fachadas. Mesmo assim, continuar investindo no nome passava a exigir conviver com uma incerteza que alcançava a expansão da rede.

Essa distinção ajuda a entender por que a história interessa a quem abre um restaurante. A escolha de uma marca costuma começar pela sonoridade, pela lembrança que desperta e pela facilidade de virar uma boa placa. Quando o negócio cresce, o nome precisa também sustentar contratos e justificar o investimento de pessoas que não participaram daquela conversa animada em que todos acharam a ideia excelente.

Há liberdade para criar o nome de um restaurante, mas ela não é irrestrita quando a escolha vira marca comercial. A Lei da Propriedade Industrial brasileira impede o registro de sinais contrários à moral e aos bons costumes ou que ofendam a honra ou a imagem de pessoas. São limites que podem alcançar até nomes originais, sem nenhum concorrente parecido por perto. A análise depende do significado, da apresentação e do público de cada caso; a decisão europeia não se transforma automaticamente numa proibição brasileira da mesma palavra.

Isso exige cuidado com o significado sem transformar a criação de nomes num concurso de neutralidade. Restaurantes podem ter humor, provocar e recorrer à cultura popular. O trabalho difícil está em perceber quando a provocação ajuda a apresentar a casa e quando faz o estabelecimento depender da banalização de uma violência que continua produzindo consequências fora dali.

A pessoa que encontra a fachada não recebe junto o livro de receitas ou a explicação dos fundadores. Ela reage ao que tem diante de si, usando também a própria história. Quando essa leitura exige esclarecer repetidamente o que os donos não quiseram dizer, a marca começa a ocupar a conversa com explicações que pouco têm a ver com o jantar.

A família que ficou

Em abril de 2026, a rede anunciou que passaria a se chamar “La Famiglia se sienta a la mesa”. Na comunicação oficial, reconheceu que o conflito jurídico motivara a mudança, embora afirmasse que ele não fora determinante e que a decisão integrava uma evolução estratégica. Hoje, seu site já apresenta a nova denominação.

A escolha conservou uma parte importante do nome antigo e deslocou o centro da conversa. A família continuava ali, agora apresentada pela empresa como o conjunto de amigos, clientes, funcionários e franqueados reunidos em torno do projeto. Para uma rede que pretendia preservar reconhecimento enquanto mudava de identidade, havia uma continuidade compreensível nessa solução.

Cena fictícia de uma família contemporânea almoçando à mesa de um restaurante, com roupas casuais e luz natural.
Com Famiglia no lugar de Mafia, a rede procurou preservar o convite à comida e ao encontro, deixando para trás a referência que motivou o conflito jurídico. Cena fictícia gerada por inteligência artificial

O trabalho necessário para isso, porém, não cabe apenas na substituição de uma palavra. Numa rede de restaurantes, a mudança alcança fachadas e cardápios, precisa aparecer nos canais digitais e ser explicada aos clientes. Também exige combinar a transição com franqueados que investiram na marca anterior e precisam ajudar o público a reconhecer a mesma operação sob outra apresentação.

Essas tarefas existem mesmo quando a troca é bem recebida. O valor construído durante anos não desaparece porque algumas letras mudaram, mas precisa ser conduzido até o novo nome. Se o cliente conhece a casa pelo antigo, alguém terá de fazer a ligação para que a lembrança de um bom jantar continue encontrando o endereço certo.

É aí que o caso vai além da discussão sobre bom ou mau gosto. A referência que ajudou a diferenciar o primeiro restaurante pode se tornar um obstáculo para os próximos, especialmente quando passa a circular entre públicos e países que a interpretam de outra maneira.

Com Famiglia no lugar de Mafia, a rede procurou preservar o que havia de mais convidativo na proposta: a comida e o encontro. Para quem está escolhendo o nome de um restaurante, essa troca põe uma questão prática à mesa antes da primeira reserva: a referência que diverte os fundadores também consegue sustentar a identidade que estão construindo? Vale discutir isso enquanto a família ainda está batizando a casa, e a saída de um convidado inconveniente não exige trocar as placas de uma rede inteira.

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Minha Marca, e Agora?
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Agnes e David Ortenzi, sócios da OrtenziAvila Propriedade Intelectual. Apaixonados por gastronomia, vinhos, viagens e as outras coisas boas da vida, cuidam de mais de 500 marcas, direitos autorais, desenhos industriais, contratos e outras "juridiquezas". Neste espaço, trazem um olhar humano e descomplicado do mundo da propriedade intelectual para os leitores do Comer e Curtir.
Instagram: @ortenziavila
E-mail de contato: marcas@ortenziavila.legal

* Todo o teor textual e de imagens publicados nesta coluna são responsabilidade deste colunista.

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