A velhice é o inverno da vida?

“Memorial do Inverno- Um Retrato do Artista Quando Velho” é o mais recente livro do jornalista Roberto Pompeu de Toledo. Em 216 páginas, ele descreve o processo de envelhecimento, agravado pela perda de sua mulher, Maria Isabel, ocorrida em 2021. A superação do luto e o enfrentamento das dificuldades impostas pela idade avançada conduzem o livro.

Mas Toledo não está sozinho nessa empreitada. Ele se ampara em outros autores ilustres para tratar do tema. O jornalista fala das limitações, perda de energia, dificuldades físicas e psicológicas da velhice.Toledo afirma que até os 77 anos não se sentia um idoso, mas foi a perda do amor de sua vida que o derrubou. E então ele viu a velhice passar a ser uma questão importante. Foi neste cenário que ele escreveu o livro. Perda de memória, visitas mais frequentes aos médicos e consciência da proximidade do fim passaram a fazer parte do seu dia a dia.

Na primeira parte da obra, “Dor e Luto”, o jornalista se detém à perda de Maria Isabel. Na segunda, “Vida e Destino”, surgem novas perspectivas. Na terceira parte, “Auroras e Galos”, Toledo está mais confortável com sua nova condição de idoso e consegue ver esta nova fase com mais tranquilidade. Ao contrário de muita gente que conheço, Toledo já afirmou que hoje tem menos medo de morrer do que no passado.

Se a idade trouxe perdas, a mudança de hábitos e a tristeza ao cotidiano de Roberto Pompeu de Toledo, um homem ativo intelectualmente que chegou os 80 anos com saúde, autonomia e a companhia da família, imagino o impacto da velhice para quem não tem uma rede de apoio ou o amparo da literatura que dê alguma alegria à vida.

Toledo vê a velhice não como o fim da vida, mas como uma etapa, com dificuldades adicionais em relação à juventude, mas ainda assim é vida. Talvez seja esta a melhor perspectiva para encarar o passar dos anos.

Vejo muita gente ficando amarga com o tempo. É uma mistura de tristeza e insatisfação que parece não ter cura. Credito isso a problemas mal resolvidos durante a vida.

Meu modelo é minha mãe, uma otimista inveterada, que mesmo com muitas limitações físicas conservou sua doçura e amor pelas pessoas até seus últimos dias. Tinha prazer em coisas pequenas que lhe eram possíveis. Não me esqueço de um dia em que perguntei o que ela mais queria numa tarde de verão e ela, sem titubear, me disse: sorvete de milho verde.

A mim pareceu incrível que aquele sorvete pudesse devolver a felicidade para minha mãe que estava acamada, enxergando pouco, dependendo de todo mundo para coisas simples como ir ao banheiro. Ela nunca reclamou, sempre agradeceu à vida e se deliciava com sorvete de milho. Para ela, era uma dose homeopática de felicidade que estava ao seu alcance e que despertava uma alegria juvenil que ficou gravado em minha memória. O livro “Memorial do Inverno”, de Roberto Pompeu de Toledo, foi publicado ela Editora Objetiva em versão física e ebook.

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Roberto Junior Monteiro, 63 anos, é jornalista e atua em jornalismo rural. Seus interesses passeiam por áreas diversas: Botânica, Cinema, Yoga, Meditação, Música, Desenho e Línguas. Ultimamente tem se dedicado a refletir sobre os desafios do envelhecimento.E-mail: rjrmonteiro@hotmail.com

* Todo o teor textual e de imagens publicados nesta coluna são responsabilidade deste colunista.

 

 

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