Os 60+ têm o desafio de não serem excluídos do mundo digital

Lutar contra o novo é assumir uma luta inglória, fadada à derrota. O melhor a fazer é aguçar o senso crítico para selecionar as boas novidades e tirar proveito delas. Assim acontece com a tecnologia, que é parte do nosso dia a dia.

A sociedade moderna supervaloriza a tecnologia, mas nem todo mundo está preparado para acompanhar essas mudanças. Em muitos casos falta “letramento tecnológico” para enfrentar as transformações que se impõem. Para os 60+, foi uma luta entender o funcionamento do Facebook, do Instagram, Tik Tok e outros recursos da internet. O aprendizado foi às custas de erros e acertos, mas chegamos até aqui. É preciso se empenhar constantemente para se atualizar sobre os recursos digitais.

No entanto, há a “modernidade”  também gera impasses e nem sempre facilita a vida do cidadão. Em muitos casos a automatização está criando novas barreiras e contribuindo para desumanizar as relações entre as pessoas.

Isso parece conversa de gente velha, mas não estou sozinho nessa empreitada. O jornalista e escritor Ruy Castro escreveu um artigo a respeito, no jornal Folha de São Paulo (02.07.26) com o título “Empurrados para o Digital”. A maior crítica é o descaso de empresas e governo com quem não consegue lidar com novas tecnologias.

Castro conta que recebeu um vídeo denunciando as dificuldades dos idosos com o mundo digital. O autor do vídeo afirma que “quando uma tecnologia não respeita a biologia humana ela não é inovação. É o descaso fantasiado de modernidade”.

Vivi isso quando tive que administrar a conta bancária de minha mãe, de 85 anos. A dificuldade de fazer o reconhecimento facial para ter acesso à conta pelo aplicativo, me obrigou a ir a um cartório e me registrar como tutor. Foi um vai e vem à agencia, levando documentos, que durou quase dois meses.

As críticas do vídeo recaem principalmente sobre o sistema bancário. Muitos bancos estão fechando agências e restringindo o atendimento presencial a quem tem muito dinheiro. O problema é que a população idosa só tende a aumentar no Brasil e, pelo jeito, essa fatia da sociedade será negligenciada solenemente pelos bancos.

Outros serviços, como o atendimento pelo SUS ou agendamento de consultas, também estão passando por esse processo de automatização. Considera-se que todo mundo tem acesso à internet ou a um smartphone. Em alguns restaurantes o atendimento já é feito apenas via QR Code, tablets ou totens.

A “reivindicação”  ou protesto contra a digitalização não é um apelo para o retorno ao mundo analógico, mas para que seja oferecida alguma opção para quem tem dificuldade com tecnologia.  Há sinais de setores que estão de olho nessa demanda. Soube que o Banco Mercantil está investindo no público mais velho. Desde 2018, a rede bancária foca produtos e serviços para essa população. E não foi por caridade, afinal  42,6% da clientela do banco tem mais de 50 anos.  A empresa buscou soluções mais adaptadas ao perfil dos seus clientes. Hoje 81% das operações de crédito são feitas via WhatsApp e aplicativo. Taí um caminho.  Os 60+ não precisam de tratamento especial, mas seria interessante oferecer alternativas para esse público, para facilitar o acesso a serviços básicos como sacar o próprio dinheiro ou marcar uma consulta no médico.

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Roberto Junior Monteiro, 63 anos, é jornalista e atua em jornalismo rural. Seus interesses passeiam por áreas diversas: Botânica, Cinema, Yoga, Meditação, Música, Desenho e Línguas. Ultimamente tem se dedicado a refletir sobre os desafios do envelhecimento.E-mail: rjrmonteiro@hotmail.com

* Todo o teor textual e de imagens publicados nesta coluna são responsabilidade deste colunista.

 

 

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