VIVER MELHOR
Há algum tempo, conversando com uma amiga, ela se surpreendeu ao saber que eu havia feito minha primeira consulta com um geriatra com pouco mais de 40 anos. Na verdade, o médico era um homeopata e médico de família. Eu vinha tratando problemas de alergia com ele e, num certo momento, pedi conselhos para me preparar para a velhice. Cedo demais? Acho que não. Afinal, a ideia já era viver melhor.
Essa conversa foi decisiva para eu entender que deveria começar a pensar no assunto o quanto antes. Claro que levou um bom tempo para eu partir para a ação, mas foi ali que tomei consciência de que era preciso “me construir como idoso”. Hoje, aos 62 anos percebo que cometi mais acertos que erros e acho que peguei um bom caminho para uma velhice digna. Não é uma receita de bolo, não é fácil e exige uma dose mínima de disciplina.
Mas o que teve nessa conversa de tão revelador?
Bem, o médico me explicou o óbvio… que era importante eu pensar em três pilares para me sustentar no futuro: o emocional, o físico e o financeiro. E isso é norma para qualquer cidadão ter uma vida saudável, em qualquer idade. É um roteiro indispensável.
Tratar o aspecto emocional exige sinceridade para olhar suas relações e descartar aquelas que são tóxicas e que te empurram para baixo. Significa desfazer antigas rusgas e não deixar que esse material fermente conflitos que nunca se resolvem. É preciso ser mais flexível para manter as relações que valem a pena, com a família e amigos.
É também incluir no dia a dia alguma atividade para aliviar o stress, desenvolvendo uma habilidade que não dependa de ninguém. Comecei a fazer desenho de observação. Depois fui para a aquarela e hoje faço ilustração botânica com lápis de cor. Pode chover, fazer frio, posso ter companhia ou não. Sempre estou rabiscando um papel.
Antes de partir para o próximo tópico, vale lembrar que sempre fui sedentário, avesso a atividades físicas. Mas depois da conversa com meu médico resolvi nadar… até o dia em que tive um problema nas vértebras cervicais. Fiquei “rengo’ como dizia a minha mãe. Durante um ano fiz quiropraxia para voltar ao normal. Depois de doze meses com muitas manobras e fisioterapia, o médico me liberou. Porém, firmei o compromisso de fazer alguma atividade física.
Comecei com pilates duas vezes por semana. Um dia experimentei uma prática de Yoga. Gostei tanto que passei a fazer cinco vezes por semana. Lá se vão doze anos. Graças a isso, melhorei meu condicionamento físico, minha consciência corporal e respiração. Passei a viver melhor. Também conheci alguns princípios filosóficos da prática que me são muito úteis e melhorei minha alimentação.
Finalmente o tema mais espinhoso: o econômico. Adiei por muito tempo pensar a respeito, mas como tenho muito medo do futuro, arregacei as mangas e “parti para cima do touro”. O que mais me preocupava era ter onde morar. Cheguei a trabalhar doze horas diárias, de segunda a sábado, pra fazer um pé-de-meia. Consegui comprar um teto.
A fase seguinte foi reajustar minhas expectativas à realidade. Parei de me nortear pela ideia de sucesso (econômico ou social) dos outros. O trabalho deixou de ser um sacrifício, até porque eu gosto muito do que faço. Passei a investir em ativos que vão me dar alguma renda no futuro. Isso significa guardar algum dinheiro para suplementar a aposentadoria ou pagar o plano de saúde. Ainda que seja pouco, qualquer recurso é melhor que nada.
O resumo dessa história é que cada um precisa encontrar ou criar um modelo de vida. O importante é pensar que uma hora não poderemos trabalhar oito ou dez horas por dia. É preciso construir uma rede de apoio com familiares e amigos, porque a solidão é tão prejudicial quanto a falta de dinheiro e de saúde.
Nas culturas indígenas originais brasileiras, os idosos são portadores da história e da sabedoria. Na sociedade atual está difícil manter esse status. Alguns envelhecem e não se tornam sábios, outros simplesmente são ignorados. É crucial que os mais velhos mantenham sua independência para que sejam vistos como indivíduos que encontraram seu lugar neste mundo. Essa conversa ainda vai muito longe. Até a próxima coluna Viver Melhor 60+!
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