Viver Melhor 60+: que tal fazer um testamento?

Fui criado por uma família para a qual o sentimento comunitário era um princípio de vida. Tive tios que, mesmo tendo muitos filhos, não se incomodavam de levar mais uns sobrinhos para passar um tempo na casa deles. Às vezes eram dez crianças numa só casa. Credito isso à ancestralidade indígena da minha avó materna. Pode ser também porque ninguém era rico e um tinha que ajudar o outro.

Era a tal rede de apoio que nunca faltou na família. Essa tradição foi passada adiante e nesse contexto os mais velhos eram vistos como detentores da experiência. Ainda que em algumas vezes parecesse que eles pertenciam a um mundo “velho”, havia o respeito. É por isso que me espanto com o desdém da maioria das pessoas por quem já passou a barreira dos 60 anos.

Porém, nossa sociedade é bem contraditória. Ao mesmo tempo em que há um certo desprezo pelo idoso, é cada vez maior o número de relatos de famílias que dependem financeiramente das aposentadorias ou do patrimônio conseguido por quem hoje, está inativo. Os abusos não são raros e está presente em todas as classes sociais, de A a Z. Já soube de casos de famílias que disputam, a tapa, o espólio dos pais aposentados. Brigam por fazendas ou pela pensão de um salário mínimo.  Sem contar aqueles idosos que adiam a aposentadoria porque sustentam filhos ou netos.

Abuso financeiro

A situação durante a pandemia se agravou tanto, com o aumento expressivo das denúncias de abuso pelo Disque Idoso Paraná, que a Secretaria Estadual da Justiça, Família e Trabalho resolveu publicar o Guia Financeiro e Patrimonial para Pessoas Idosas. É uma estratégia para evitar a violência financeira ou patrimonial, principalmente contra quem já superou a barreira dos 60 anos.

O principal abuso é o uso dos recursos financeiros, ou patrimoniais, sem autorização do idoso. O que complica é que muitas vezes as pessoas mais velhas também são vítimas de assédio psicológico. O idoso se vê obrigado a atender às exigências de filhos e netos, pois são os familiares que se responsabilizam por cuidados básicos como leva-lo ao médico ou são os responsáveis pela casa. Justamente por isso, a Secretaria recomenda que os Cartórios tenham uma ação redobrada em ações realizadas por parentes ou terceiros de idosos para garantir   a segurança jurídica dos cidadãos 60+.

O guia também orienta que o idoso evite o isolamento social, mantendo o contato com velhos amigos. Além disso, ele precisa ter um bom amigo com quem possa falar abertamente dos seus problemas. Tem mais dicas: participar de atividades sociais; manter o controle dos seus pertences; não fornecer a senha do seu cartão bancário para estranhos ou terceiros e, sobretudo, procurar ajuda legal quando necessitar.

Testamento

Um amigo advogado me deu uma orientação valiosa, esses dias. Como não tenho dependentes, ele sugeriu que eu faça um testamento em vida. Assim, quando eu partir não haverá disputas pelo pouco que deixarei. Tudo estará explicadinho no documento, registrado em cartório. Isso evita desgastes para a família e, se houver outra dimensão, estarei lá de cima olhando a minha vontade ser colocada em prática. Isso vale inclusive para quem tem uma prole numerosa.

Tenho um tio que era muito bem de vida. Ele era proprietário de algumas fazendas no Mato Grosso e tinha sete filhos. Muito antes de parar de trabalhar ele fez a partilha em vida. Quando ele partiu tudo já estava resolvido, sem brigas ou desentendimentos. Mais um ensinamento de um idoso que conhecia as vicissitudes deste mundo de meu Deus.

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Roberto Junior Monteiro, 63 anos, é jornalista e atua em jornalismo rural. Seus interesses passeiam por áreas diversas: Botânica, Cinema, Yoga, Meditação, Música, Desenho e Línguas. Ultimamente tem se dedicado a refletir sobre os desafios do envelhecimento.E-mail: rjrmonteiro@hotmail.com

* Todo o teor textual e de imagens publicados nesta coluna são responsabilidade deste colunista.

 

 

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