Ter uma vida tranquila na maturidade exige planejamento, pois a velhice é construída a cada dia. Com frequência tenho ouvido amigos e conhecidos falarem em formar uma comunidade com amigos. São poucos os que conseguem concretizar esse desejo, seja porque mudam de ideia ao longo do tempo, seja porque algum fato inesperado muda o rumo das coisas. É compreensível também que antigos amigos, com o tempo, se distanciem porque a vida nos transforma e adquirimos incompatibilidades inegociáveis.
Morar em comunidade não é fácil, os condomínios são a maior prova disso. Mas se for um grupo de pessoas que já se conhecem as coisas podem ser mais fáceis. Numa conversa de bar, conheci um desses casos que tem os ingredientes para dar certo. Conversei com uma pessoa que participa de um grupo de oito amigos que decidiram morar juntos. Eles se reuniram, escolheram o lugar onde desejavam morar e compraram um terreno. O condomínio foi formalizado e cada um está construindo sua casa. O grupo é heterogêneo. Tem casais, solteiros, héteros, gays. Mas todos eles estão unidos pela amizade iniciada na adolescência e que perdurou quando todos passaram dos 60 anos.
A ideia de ter uma velhice compartilhada tem lá suas boas razões. Se o isolamento social é ruim quando se é jovem ou quando o indivíduo transita por vários ambientes sociais (emprego, escola, academia), imagine a situação de alguém que não tem essas oportunidades de interação social ou que é obrigada a conviver com pessoas que não têm as mesmas referências.
Por isso todas as ideias de dar mais atenção e amparo aos idosos são bem vindas. Li a respeito do Appleby Blue um prédio de moradia social construído em Londres. São 57 apartamentos, destinados a pessoas com mais de 65 anos. Toda a construção foi pensada e planejada para estimular a convivência coletiva.
O Appleby Blue privilegia áreas compartilhadas como jardins, hortas e pátios. Tem ainda uma cozinha comunitária e um corredor comum na frente dos apartamentos, com vista para a rua. Na frente de cada apartamento foram instalados bancos e poltronas, com a intenção de estimular o encontro entre os vizinhos.
E a construção não é nenhuma novidade do mercado imobiliário londrino. Faz parte de uma tradição de 500 anos, as Almhouses ou asilos feitos para os idosos mais necessitados. No entanto, o Appleby Blue foi idealizado pensando no novo perfil dos mais velhos e também como forma de combater a solidão.
A OMS (Organização Mundial da Saúde) estima que a solidão e a desconexão social sejam responsáveis por mais de 800 mil mortes todos os anos no mundo. Viver sozinho pode ser a causa de mortes precoces, doenças cardíacas, depressão e demência.
No caso do Appleby Blue os alugueis correspondem a um terço do valor de mercado. Os moradores e visitantes também podem participar das atividades nas áreas comuns. O prédio ganhou o prêmio Stirling , um dos mais prestigiados no mundo da arquitetura, oferecido pelo Instituto Real dos Arquitetos Britânicos e homenageia a melhor nova construção feita no Reino Unido.
Um estudo recente revelou que as Almhouses prolongam a expectativa de vida de seus moradores em até dois anos e meio por criarem um espírito comunitário e combaterem a solidão. Taí a ideia. Quem sabe o mercado imobiliário brasileiro algum dia desperte para esse segmento e construa prédios mais adequados para os 60+





