Quando o desapego material vira hábito

Uma vez li uma entrevista da Nara Leão que me fez pensar a respeito de rituais. Ela contou que, na infância, tinha a liberdade de escolher o dia do seu aniversário. Por isso, nem sempre comemorava a data no mesmo mês ou dia. No início do ano, os pais já perguntavam quando ela gostaria de fazer a festa. Poderia ser quando ela quisesse. Nara escolhia uma data no ano e assim esperava o dia escolhido para comemorar seu aniversário.

Achei a ideia muito interessante, talvez por ser desapegado de rituais. Sei que para muita gente os ritos têm papel fundamental, são quase como um mapa do caminho a ser seguido para chegar a algum objetivo. Por isso é tão comum, a cada fim de ano, ouvir falar das resoluções e metas para o novo ciclo que se anuncia.

Limpeza e desapego material

Apesar de não ser adepto de propósitos anuais, tenho princípios com ciclos próprios. Constantemente faço uma limpa e me desfaço de tudo o que não tem mais significado em casa. Aí incluem-se eletrodomésticos, roupas ou objetos que não uso há meses. O desapego é um exercício constante. Não descarto esse material no lixo. Procuro dar um destino mais adequado, doando para alguma instituição ou para uma pessoa mais necessitada.

Descobri que tudo tem alguma utilidade para alguém. Até mesmo aquele equipamento eletroeletrônico que não funciona mais é bem recebido por empresas de reciclagem. Há várias delas que fazem a coleta gratuitamente. A FAS (Fundação de Ação Social) recebe móveis e outros utensílios domésticos. Algumas ONGs também aceitam doações desse material. Tudo é revertido em recursos para a manutenção de abrigos de animais abandonados ou outros serviços sociais.

Outro hábito que mantenho é consertar o que ainda tem algum significado ou utilidade. É como nadar contra a maré do consumo fácil. Já fiz a reforma de roupas, sapatos e até tênis. O legal é que esse trabalho é feito por pequenos negócios, geralmente do próprio bairro ou em algum canto esquecido da cidade. Vou investigando e descobrindo bons profissionais.

Memória afetiva 

Porém, há aqueles objetos que fazem parte da nossa história, cujo apelo afetivo é de outra dimensão. Esses eu mantenho comigo. Foi o caso de dois pratos de porcelana estampados com minha foto e de meus irmãos que ficava na casa da minha mãe. Era uma louça barata, mas me serviam quase como um portal para uma outra dimensão. Pois bem, num fatídico dia, a louça despencou da parede e se fez em pedaços. Recolhi tudo e guardei.

Os cacos ficaram comigo uns dois anos, até que achei um restaurador no Rio Grande do Sul, o Cláudio. Ele reconstruiu as peças e quando as recebi inteiras fiquei emocionado. Hoje os pratos estão num lugar de honra na cristaleira da minha mãe.

Assim também aconteceu com o velho relógio de parede Silco que por anos foi presença constante na casa dos meus pais. O Rogério, um relojoeiro dos bons, restaurou a máquina que hoje reproduz o toque do Big Ben a cada 15 minutos.

O caminho que encontrei foi refrear o consumo e investir no que tem significado. Não preciso de uma coleção de canetas, basta eu ter aquela Parker que meu pai me deu. Não quero ter objetos para toda vida, mas quero ficar com os que têm a minha história.

Acompanhe outras colunas Viver Melhor 60+  aqui

Siga o jornalista Roberto Monteiro no Instagram. 

Viver Melhor 60+
Viver Melhor

Roberto Junior Monteiro, 63 anos, é jornalista e atua em jornalismo rural. Seus interesses passeiam por áreas diversas: Botânica, Cinema, Yoga, Meditação, Música, Desenho e Línguas. Ultimamente tem se dedicado a refletir sobre os desafios do envelhecimento.E-mail: rjrmonteiro@hotmail.com

* Todo o teor textual e de imagens publicados nesta coluna são responsabilidade deste colunista.

 

 

PUBLICIDADEspot_img
PUBLICIDADEspot_img

Leia também

Compartilhe