Um filme que troca sustos fáceis por tensão e originalidade rara no terror atual
Nem todo terror vem do escuro. Às vezes, o que assusta é a culpa, o desejo de redenção, o que vai além do que nossos olhos podem ver (aí ficou mais fácil sentir o nível, acertei?). Pecadores, filme lançado este ano, é do tipo que não busca sustos, mas incômodo. Ele te pega pelo olhar, pela música – e que trilha sonora!, pela sensação de estar diante de algo que grita história.
A trama se passa no Mississippi dos anos 1930 e acompanha dois irmãos gêmeos, vividos por Michael B. Jordan, que voltam à cidade natal para abrir um clube de música. É um recomeço, uma tentativa de reconstruir o que o passado destruiu. Mas logo percebemos que o que os persegue não é apenas a lembrança do que fizeram, é algo mais profundo, mais antigo, quase sobrenatural.
O filme vai de um drama histórico cheio de tensão racial para um terror simbólico que se revela aos poucos. Quando o elemento místico entra em cena (que aqui entraria um spoiler, mas como prefiro instigar que você veja, terá que conferir na prática), tudo ganha outra dimensão. É impossível não pensar em como o gênero do terror é, muitas vezes, o espaço mais honesto para falar sobre dor e resistência.
Agora, um ponto alto, que particularmente eu amo, é o elemento de fotografia, que em Pecadores, é uma pintura viva. Existe uma coisa poética na forma como a luz corta o rosto dos personagens, como se o pecado fosse visível. E a trilha sonora, guiada pelo blues, é quase um feitiço. Cada nota parece carregar um peso bem maior do que aparenta, tanto positivo, quanto negativo.
Mas preciso destacar uma cena de Pecadores, em específico, que quando você assistir, vai lembrar de mim. Tentarei descrever, mas falharei miseravelmente pela proporção que ela tem, vamos lá: Sammie, também chamado de Pastorzinho, toca pela primeira vez na inauguração do bar dos gêmeos Fumaça e Fuligem (faria mais sentido se fosse Faísca, rs). Então a magia começa acontecer… Pêlos arrepiados e música alta que faz termos vontade de levantar para dançar com eles. Fiquei tão imersa que parece que a cena nos faz transcender.
O que mais me pegou em Pecadores foi justamente o jeito como ele mistura, momentos de alegria e feridas históricas com o horror do invisível. O mal aqui não é só o sobrenatural, é o humano: o preconceito, a culpa que atravessa gerações. E talvez por isso o filme assuste tanto sem precisar de gritos.
Assistimos quando estava no cinema e saímos impactados. É aquele tipo de terror que não te deixa pular da cadeira, mas pega o psicológico, sabe como? O pecado, no fim, é só uma forma de lembrar que o medo também mora dentro da gente.
Pecadores está disponível na HBO Max, e se você gosta de filmes que transformam o medo em metáfora, como Hereditário, Nós ou Corra! (adoro os três), ou seja, vale muito a pena o play! É um filme para ver no Halloween, mas também para pensar no dia seguinte.
Assista ao trailer de Pecadores.
Avaliação: ⭐⭐⭐⭐⭐
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