‘O Agente Secreto’ é pura pirraça brasileira

Um filme que exige repertório e recompensa quem aceita o desafio

Vou começar dizendo que assistir ‘O Agente Secreto’ uma só vez não é suficiente. Pelo menos não foi para mim. A mais nova obra do cinema brasileiro é DENSA; e quando falo densa, é em gênero, número e grau. É difícil, é de referências que não são óbvias, de observação e repertório. Inclusive, uma das grandes palavras que podem ajudar a descrever o que se precisa ter para entender o filme é “repertório”. De história do Brasil, de conhecimentos populares, de geografia, política e, também, imaginação.

Dito isso, te conto que não foi de imediato que compus tudo isso, muito pelo contrário. Assisti ao filme e a primeira impressão foi: baita produção, baita atuações, muito bem feito, mas o que exatamente está querendo dizer? Eu não entendi o cerne do filme. Mas aí que está. Me faltava repertório. Assisti sem base, afinal, era uma pré-estreia e sabíamos poucas coisas. Agora foi diferente – e como! Só na segunda vez, já munida de pesquisa e boas conversas, tudo começou a fazer sentido. E esse estranhamento inicial faz parte da experiência.

Muito bom, Helô, mas e aí?

Te falo que toda essa introdução foi necessária e, quando você assistir, vai entender o motivo. Mas vamos fazer uma pausa, aqui, bem na “meiuca”. Não tem como você ler esse texto, sobre esse filme, sem uma trilha sonora. Topa?

Que tal assim: clica aqui, dê o play na sequência que te apresento (com orgulho) e volta pra cá, combinado?

Tudo pronto. Vamos lá?

O Agente Secreto é um filme absurdo. Isso mesmo. Absurdamente incrível. Absurdamente inusitado. Absurdamente difícil. Pura pirraça. Kleber Mendonça Filho, o grande diretor brasileiro de tantas outras obras, ainda que não sejam tão reconhecidas quanto essa, fez um trabalho detalhadamente cuidadoso e responsável ao retratar Recife de 1977 de um jeito muito íntimo, como só alguém que tivesse vivido aquela realidade retrataria.

Nesse sentido, vou começar te trazendo a minha percepção sobre a fotografia do filme. Lindíssima. Para mim, as cores do filme são amarelo e vermelho. Elas se repetem em inúmeros momentos e destacam a paleta. Cuidadosamente, de novo, as cenas do Brasil antigo eram mais vivas, alegres, conforme a ignorância também se apresentava ou se fazia maior, diante do caos que o país vivia durante a Ditadura Militar. Esse é outro ponto de destaque. O longa se passa durante esse marco histórico e deixa claro como, logo na primeira parte, com a chegada de Marcelo (Wagner Moura) na pequena cidade do Nordeste, com seu fusca – adivinha a cor? Sim, amarelo! Quase um mascote visual.

A trilha segue a mesma lógica: poucas músicas, mas escolhas precisas. Ângela Maria, Lula Cortês e a banda norte-americana Chicago. A brasilidade está presente, mas dialoga com o mundo, com o tempo histórico, com o cinema que o país consumia naquele período. Trilha, montagem e fotografia se complementam como peças de um mesmo discurso.

Assim, a estrutura do filme se coloca. O roteiro, aqui, também merece destaque. É inteligente e não te subestima, mas também não te guia pela mão. É preciso interpretar, relacionar, resgatar referências, entender as camadas metafóricas e políticas. Aqui relembro minha professora querida de língua portuguesa, Alessandra Pescarole, que martelou cirurgicamente interpretação de texto e contexto durante o Ensino Médio. É exatamente sobre esse ponto. Kleber não trata o público como espectador, mas como leitor.

Aqui entra um ponto pessoal: normalmente prefiro filmes que fecham seus ciclos narrativos. ‘O Agente Secreto’ não faz isso. Deixa dúvidas, abre caminhos que não se completam, insinua mais do que explica. Na primeira vez, isso me incomodou. Na segunda, fez sentido. Nem tudo precisa ser respondido dentro do filme – mesmo que me doa. Algumas respostas estão fora dele, no contexto, no Brasil, em nós.

E, isso é importante: a experiência muda conforme a bagagem. Quem viveu parte daquele contexto, principalmente dos lugares apresentados, como foi o caso do meu namorado, assiste a partir de outro lugar. Esse é o poder da identificação. Cinema é linguagem, mas também memória. Se você se identifica com determinada coisa, não experiencia de um jeito mais próximo? É isso.

Depois de tudo isso, posso afirmar com tranquilidade: a indicação ao Oscar em 2026 seria mais que justa. Não é torcida no escuro, não é modismo. É a constatação de quem viu um filme crescer, se encaixar e se revelar muito maior na segunda experiência. Depois de ‘Ainda Estou Aqui’, de Walter Salles, parece que o cinema brasileiro abriu uma temporada de revisitar seu passado com coragem – e isso é raro, bonito e necessário.

Vale o ingresso, vale a pipoca e vale as 2h40 de atenção.

QUER SPOILERS? SEGUE ABAIXO.

Se não, (te entendo!) obrigada pela leitura. Nos vemos na torcida pela estatueta! 

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SPOILERS | Versão resumida

O gato de duas caras

Para nós, ele simboliza a dualidade do protagonista: Marcelo/Armando. Um elemento simples que visualiza essas duas identidades convivendo no mesmo homem.

A perna encontrada dentro do tubarão

Essa cena interpretamos com duas leituras:

  • Referência ao período em que “Tubarão” era lançado no Brasil e todos estavam impressionados com o filme, reforçando o clima de tensão e violência daquela época, já que ataques de tubarão em Recife eram (e ainda são) reais.
  • A Perna Cabeluda (a lenda). Outra camada: a famosa lenda urbana pernambucana dos anos 1970, uma “perna viva” que atacava pessoas nas ruas. No filme, ela aparece como representação do medo – uma metáfora para “o terror vira folclore quando ninguém pode dizer a verdade”.

O momento em que Marcelo se assume como Agente Secreto

Quando percebe que está sendo caçado, ele deixa de ser apenas um fugitivo e passa a assumir sua dupla identidade. É a virada total do personagem.

É isso. Nosso texto mais longo até aqui, porque de fato merecia essa profundidade.

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Assista, prestigie o cinema brasileiro. Estamos em uma nova fase (graças a Deus).

Avaliação:⭐⭐⭐⭐⭐

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ENTRE
CENAS

Heloísa Ribas é jornalista e pós-graduada em Audiovisual. Apaixonada por cinema desde muito cedo, começou a estudar de forma mais aprofundada aos 16 anos, quando fez seu primeiro curso de áudio para cinema. Em sua coluna Entre Cenas, analisa tudo que faz o cinema nos transportar para dentro da sala. Com olhar crítico e sensível, convida o leitor a descobrir o cinema de um jeito novo a cada texto.

* Todo o teor textual e de imagens publicados nesta coluna são responsabilidade deste colunista.

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