5 lições que aprendi com minha mãe celíaca aos 80 anos + receita de quindim sem glúten

Olá, queridos leitores do Comer e Curtir! 💐 No Dia Internacional da Mulher, quero homenagear a mulher mais importante da minha vida: minha mãe, Dilma Kupczik, que acaba de completar 80 anos radiantes, sendo 58 deles ao lado do amor da sua vida, meu pai Vilson Kupczik.

Mas esta não é apenas uma homenagem. É também a história de como uma mulher de 75 anos recebeu o diagnóstico de doença celíaca após superar a Covid-19, transformou completamente sua cozinha e sua vida, e nos ensinou lições valiosas sobre adaptação, resiliência e amor incondicional pela família.

E para celebrar, trago a receita que se tornou a sobremesa preferida de filhos e netos: o quindim sem glúten da minha mãe – uma verdadeira obra-prima da confeitaria adaptada.

A mulher por trás da história

Minha mãe trabalhou por anos como vendedora na loja Jerusalém, uma das melhores lojas de artigos de cama, mesa e armarinhos de Curitiba. Depois de casada, dedicou-se à criação de três filhos muito diferentes entre si: uma designer (euzinha), um professor de educação física e um médico ortopedista. Ela sempre respeitou nossas vocações individuais, mesmo quando escolhemos caminhos tão distintos.

Filha de jogador de futebol, conheceu meu pai, também jogador na época, na antiga arena da baixada. Um amor nascido no estádio que se tornou exemplo de respeito, cumplicidade e felicidade. E, como boa paranaense apaixonada por esporte, minha mãe também jogou bolão e foi árbitra deste esporte por 20 anos, mostrando que mulher forte sempre esteve presente na nossa família.

Mas a vida reservava um desafio inesperado para essa mulher incrível.

Quando a Covid mudou tudo

Minha mãe comeu glúten durante quase toda a vida. Vinda de uma família de italianos, o pão, a massa, a pizza faziam parte da sua identidade culinária. Lembro até hoje do cheiro e do sabor inconfundíveis do pão caseiro que minha avó fazia. Aquele aroma que enchia a casa e aquecia o coração.

Daí veio 2020. A pandemia. E minha mãe contraiu Covid-19.

Foi internada, lutou, venceu essa doença terrível. Mas algo começou a mudar. Após superar a infecção, ela começou a emagrecer muito. Um emagrecimento progressivo que acendeu o alerta da família.

Sob orientação médica, fez diversos exames. Como meu irmão já era celíaco, o médico sugeriu que ela também fizesse o teste. A biópsia do duodeno veio positiva: doença celíaca aos 75 anos de idade.

Foi um choque para todos nós. Imagine: uma mulher que passou sete décadas e meia comendo glúten, de repente descobrir que seu corpo não processa essa proteína. Uma mãe de origem italiana tendo que abandonar a pizza, o pão, a massa – alimentos que faziam parte da sua história de vida.

A ciência por trás do diagnóstico tardio

O caso da minha mãe não é isolado. Estudos científicos recentes têm demonstrado uma conexão entre infecções virais graves, incluindo a Covid-19, e o desenvolvimento ou manifestação de doenças autoimunes como a doença celíaca.

Uma pesquisa publicada na revista Gastroenterology demonstrou que infecções virais podem atuar como gatilhos para a expressão de doenças autoimunes em indivíduos geneticamente predispostos. O estresse imunológico causado por infecções graves pode desencadear a produção de autoanticorpos e a manifestação de condições que antes estavam silenciosas.

Além disso, um estudo publicado no The American Journal of Gastroenterology revelou que a doença celíaca pode permanecer assintomática ou oligossintomática (com poucos sintomas) por décadas, manifestando-se tardiamente através de sintomas atípicos como perda de peso inexplicada, anemia ou fadiga crônica.

No caso da minha mãe, o único sintoma foi justamente o emagrecimento progressivo após a Covid-19 – um sinal que poderia facilmente passar despercebido se não fosse o histórico familiar de doença celíaca.

Segundo dados da Federação Nacional das Associações de Celíacos do Brasil (FENACELBRA), estima-se que apenas 10% dos celíacos brasileiros estejam diagnosticados, e muitos recebem o diagnóstico após os 60 anos de idade. A minha mãe entrou para essa estatística aos 75 anos.

5 lições que aprendi com minha mãe celíaca

1. Adaptação não tem idade

Quando minha mãe recebeu o diagnóstico, ficou assustada. Mas ela já conhecia os cuidados necessários por causa do meu irmão celíaco. Mesmo assim, uma coisa é conhecer de longe, outra é ter que viver na pele.

Em apenas dois meses, ela dominou completamente a cozinha sem glúten. Aprendeu a misturar as farinhas (arroz, fécula de batata, polvilho, farinha de amêndoas) nas proporções certas para replicar as receitas que fazia há décadas. Empadão sem glúten, massa para torta, pudim, risoto, macarrão – tudo foi adaptado com maestria.

Ela me ensinou que não importa a idade: quando há vontade e necessidade, nós nos adaptamos. E ainda criamos coisas incríveis no processo.

2. A pizza sempre faz falta (mas há alternativas deliciosas)

O alimento que minha mãe mais sentiu falta? Pizza. Claro! Filha de italianos, a pizza era mais do que comida – era tradição, era memória afetiva, era reunião de família.

Mas ela não desistiu. Hoje faz pizzas sem glúten tão saborosas que o neto que mora na Irlanda (e não é celíaco) prefere comer a versão da avó quando vem visitá-la.

3. As pessoas não entendem, mas você não precisa se justificar

No início da adaptação, o maior desafio não foi a cozinha – foi lidar com as pessoas. Minha mãe levava seu próprio lanchinho para festas e eventos, e as perguntas vinham: “Por que você não come o que tem aqui?”, “Ah, um pouquinho não faz mal!”, “Mas você comia isso antes, o que mudou?”.

Ela aprendeu a ser firme e gentil ao mesmo tempo. Doença celíaca não é frescura, não é dieta da moda, não é exagero. É uma condição autoimune séria que exige 100% de adesão à dieta sem glúten.

4. Descontaminação é amor em forma de cuidado

Quando minha mãe foi diagnosticada, toda a família se mobilizou. Seguimos rigorosamente as orientações da ACELPAR (Associação dos Celíacos do Paraná) para descontaminação completa da cozinha.

Trocamos TUDO que era de teflon, madeira ou plástico poroso – materiais que podem reter resíduos de glúten mesmo após lavagem. Foram substituídos: fogão, sanduicheira, liquidificador, panelas, tábuas de corte, colheres de pau, espátulas.

Nossa família tomou uma decisão radical, mas necessária: manter uma cozinha 100% sem glúten. Nada de separação de utensílios ou áreas da cozinha. Toda a casa passou a ser livre de glúten.

Foi um investimento alto? Sim. Mas a saúde da minha mãe não tem preço. E o resultado foi que todos nós – incluindo meu pai, que já falei aqui na coluna aos 85 anos – adotamos naturalmente a dieta sem glúten em solidariedade e por amor.

5. Família que almoça junta, permanece unida

Toda semana, sem falta, os três filhos almoçam na casa dos pais. Os netos que moram em Curitiba também participam – inclusive uma neta que descobriu ser celíaca também, mostrando o forte componente genético da doença.

Esses almoços, que antes tinham macarrão tradicional, risoto com qualquer farinha, pães comprados na padaria, hoje são 100% sem glúten. E sabe o que mudou no sabor e na qualidade? Nada. Continua sendo a melhor comida do mundo porque é feita com o ingrediente principal: amor de mãe.

Minha mãe adaptou todos os pratos tradicionais da família. O empadão ficou ainda melhor. O risoto, cremoso como sempre. E o quindim… ah, o quindim se tornou a sobremesa preferida absoluta de todos.

Receita tradicional: quindim sem glúten da minha mãe

Quindim sem glúten dourado brilhante em formato de rosca sobre prato branco decorado com coco ralado
Quindim sem glúten: a sobremesa preferida da família, criada pela minha mãe após o diagnóstico de doença celíaca aos 75 anos. Receita para 10 porções com ingredientes naturalmente livres de glúten.

E agora, a estrela deste artigo: a receita de quindim sem glúten que minha mãe criou especialmente após o diagnóstico e que se tornou a sobremesa preferida de toda a família – filhos e netos incluídos!

Esta receita naturalmente não leva farinha, então é perfeita para celíacos. O segredo está na técnica e no amor com que é preparada.

Ingredientes (rende 10 porções generosas):

• 18 gemas de ovos grandes (separe as claras e congele para usar em outras receitas como suspiros ou merengues)
• 2 xícaras (chá) de açúcar refinado (400g)
• 4 colheres (sopa) de manteiga sem sal derretida (60g)
• 150g de coco ralado fresco (de preferência) ou coco ralado úmido sem açúcar
• Manteiga e açúcar para untar a forma
• 1 forma para pudim de 24cm de diâmetro

Modo de preparo:

Primeira parte – Preparando a base

1. Separe as claras das gemas com muito cuidado para não deixar nenhum resíduo de clara nas gemas. Reserve as claras em recipiente fechado na geladeira ou freezer para outras receitas.

2. Em uma tigela média, misture as 2 xícaras de açúcar com a manteiga em temperatura ambiente (não quente) e o coco ralado fresco.

3. Misture bem com as mãos ou colher até formar uma farofa úmida e aromática. O ponto ideal é quando o açúcar, a manteiga e o coco estão completamente integrados, formando uma textura granulosa.

4. Coloque esta mistura na geladeira por 1 hora para descansar e os sabores se integrarem.

Segunda parte – Montagem final

5. Após o tempo de descanso, retire a mistura da geladeira e adicione as 18 gemas.

6. Misture delicadamente com fouet ou garfo até obter uma mistura homogênea e brilhante. Não bata, apenas incorpore suavemente.

7. Retorne esta nova mistura para a geladeira por mais 30 minutos. Este descanso é fundamental para o quindim ficar com a textura perfeita.

8. Enquanto isso, preaqueça o forno a 180°C.

9. Unte generosamente uma forma de pudim com manteiga e polvilhe açúcar, cobrindo toda a superfície. Vire a forma de cabeça para baixo e bata levemente para retirar o excesso de açúcar.

10. Retire a mistura da geladeira e despeje cuidadosamente na forma preparada.

11. Coloque a forma em uma assadeira maior e adicione água quente na assadeira até cobrir aproximadamente metade da altura da forma de pudim (banho-maria).

12. Leve ao forno preaquecido a 180°C por aproximadamente 50 minutos. O tempo pode variar de acordo com seu forno – o importante é observar.

13. O quindim está pronto quando as laterais estiverem douradas e levemente afastadas da forma, e o centro ainda estiver levemente trêmulo (ele firma ao esfriar).

14. Retire do forno e deixe esfriar completamente em temperatura ambiente. Quando estiver morno, passe uma faca de ponta fina nas laterais para soltar.

15. Cubra a forma com um prato de servir maior que a forma, vire rapidamente e desenforme com cuidado.

16. Leve à geladeira por pelo menos 2 horas antes de servir. O quindim gelado é ainda mais delicioso!

Dicas de chef da minha mãe:

• Use sempre ovos frescos – a qualidade das gemas faz toda a diferença na cor dourada característica;
• O coco fresco dá um sabor incomparável, mas se não encontrar, use coco ralado úmido sem açúcar;
• Não pule os tempos de descanso na geladeira – eles são essenciais para a textura perfeita;
• O banho-maria mantém o quindim úmido e evita que queime nas bordas;
• Se o seu forno tem tendência a queimar embaixo, coloque uma assadeira vazia na prateleira inferior;
• Conserve na geladeira por até 3 dias em recipiente fechado (se sobrar!).

Por que o quindim é naturalmente sem glúten?

O quindim é uma das sobremesas brasileiras tradicionais que naturalmente não leva farinha de trigo, sendo perfeito para celíacos. Sua base é feita apenas de gemas, açúcar, manteiga e coco – ingredientes 100% livres de glúten.

No entanto, é fundamental verificar sempre os rótulos dos ingredientes industrializados:
• Certifique-se que o coco ralado não foi processado em equipamentos que processam glúten;
• Verifique se a manteiga é pura, sem adição de farinha (algumas marcas adicionam);
• Use sempre utensílios descontaminados conforme orientações acima.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) estabelece que produtos com até 20 ppm (partes por milhão) de glúten podem ser considerados sem glúten – limite este considerado seguro para a maioria dos celíacos.

O amor que transcende o glúten

Hoje, aos 80 anos, minha mãe está com a saúde normal, mantém uma dieta equilibrada e saudável, recuperou o peso e a energia. A adaptação à dieta sem glúten não apenas controlou a doença celíaca, mas trouxe uma alimentação ainda mais consciente e nutritiva para toda a família.

Ela continua sendo a melhor cozinheira que conheço. Cada prato que prepara vem com o tempero invisível mais importante: amor de mãe.

Os almoços de domingo continuam sagrados. A casa continua cheia. Os netos continuam pedindo “mais um pouquinho” de tudo. E o quindim? Ah, o quindim sempre desaparece antes mesmo de chegar à sobremesa oficial.

Minha mãe nos ensinou que a doença celíaca não é uma sentença de privação, mas uma oportunidade de reinvenção. Que aos 75 anos é possível recomeçar completamente. Que amor verdadeiro se adapta, se transforma, mas permanece.

E que o glúten pode sair da comida, mas o sabor de casa, o aconchego da família e o carinho nas receitas? Esses permanecem para sempre.

Feliz Dia Internacional da Mulher para todas as mães, avós, filhas e mulheres incríveis que, como a minha mãe, nos inspiram todos os dias! 💜

Fotos: Vanessa Kupczik e Freepik

Referências:

BRASIL. Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). Resolução RDC nº 26, de 2 de julho de 2015. Dispõe sobre os requisitos para rotulagem obrigatória dos principais alimentos que causam alergias alimentares.

LEBWOHL, B.; LUDVIGSSON, J. F.; GREEN, P. H. Celiac disease and non-celiac gluten sensitivity. BMJ, v. 351, h4347, 2015.

RUBIO-TAPIA, A. et al. ACG Clinical Guidelines: Diagnosis and Management of Celiac Disease. The American Journal of Gastroenterology, v. 108, n. 5, p. 656-676, 2013.

THOMPSON, T. et al. Gluten contamination of grains, seeds, and flours in the United States: a pilot study. Journal of the American Dietetic Association, v. 110, n. 6, p. 937-940, 2010.

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