Hamnet: A Vida Antes de Hamlet (2026) é uma grande aposta para o Oscar

O ano não poderia começar melhor para quem ama cinema. Depois do sucesso brasileiro no Globo de Ouro, fui ao cinema assistir a um filme indicado pelo nosso querido, excelentíssimo e premiadíssimo Wagner Moura: Hamnet: A Vida Antes de Hamlet. Falar sobre essa história é acessar memórias que não são minhas, mas que acabam sendo apropriadas por mim. A imersão é tão profunda que os sentimentos, as experiências e a vida de William Shakespeare, Agnes e de seus filhos passam a nos atravessar.

O filme, vencedor do Globo de Ouro de Melhor Filme de Drama e reconhecido em festivais ao redor do mundo, chama atenção pela forma como escolhe contar essa história. Existem poucos registros oficiais sobre a vida da família de Shakespeare e talvez seja justamente aí que o longa encontra liberdade para imaginar, criar e preencher silêncios. E faz isso com muito cuidado. Nada soa exagerado. Tudo parece pensado para respeitar essa intimidade.

A trama acompanha a relação entre Shakespeare e Agnes, a construção dessa família e, depois, a ruptura. SIM, O TEXTO CONTÉM SPOILER. Mas acredite, mesmo você sabendo o que vai acontecer, nada te prepara para o que vai assistir, de fato. Confia.

Passando o início da história, o filme vai mostrando, quase sem que a gente perceba, o afastamento gradual de Shakespeare da família. Não por falta de amor, mas pelo desejo de seguir seu sonho, de escrever, de ocupar outros espaços. Agnes apoia, incentiva, sustenta essa escolha, mesmo quando isso significa não tê-lo por perto. Essa distância não nasce do conflito, mas do tempo, das ausências acumuladas, das idas e vindas que criam um vazio difícil de nomear. E isso dói de um jeito muito específico. Dói também em seus filhos, principalmente em Hamnet

Este, então, personagem que leva o nome do longa, morre ainda criança – de forma prematura e dolorosa – e a partir desse momento o luto passa a ocupar tudo. Não de maneira escancarada, mas silenciosa. Aquelas dores que entram na rotina, nos pequenos gestos e mudam o jeito de existir. Sabe como?! 

O que mais me pegou foi a forma como o filme mostra que cada um sente a perda de um jeito. Agnes vive o luto no corpo, no olhar, na respiração. É tudo muito intenso, quase físico. Shakespeare se fecha, se afasta, transforma a dor em silêncio e ausência. Só existe a constatação de que nem sempre o amor é suficiente para impedir que a dor crie distância. 

E, tecnicamente, o filme ajuda muito a construir esse clima. A fotografia é delicada, com luz natural e enquadramentos que pedem silêncio só para contemplar, de verdade. O figurino de Agnes chama atenção justamente pela repetição do vestido. Aquela roupa vira quase um símbolo dessa dificuldade de seguir em frente quando nada mais faz sentido.

As atuações são um dos grandes acertos do filme. A Jessie Buckley, que interpreta Agnes, é visceral, entrega uma dor crua, sem filtros. Dá para sentir tudo atravessando a tela. E Jacobi Jupe, que atua como Hamnet, é impressionante. Assim como a dor que sentimos pela perda do filho, também conseguimos sentir a dor do filho e o esforço para ser corajoso, como pede o pai. Existe uma naturalidade na atuação dele que faz a gente se apegar rápido, quase sem perceber. Quando a ausência chega, ela pesa.

No fim, Hamnet parece um filme sobre o que fica depois da perda. Sobre como algumas dores não passam, só mudam de lugar. E sobre como criar, às vezes, é a única forma possível de seguir vivendo.

Um cinema sensível, silencioso, que não precisa gritar para marcar – mas Jessie faz isso com maestria, diga-se de passagem. 

Vale a pipoca e a telona! 

Avaliação:⭐⭐⭐⭐⭐

Assista ao trailer e entenda um pouco mais o que te espera!
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ENTRE
CENAS

Heloísa Ribas é jornalista e pós-graduada em Audiovisual. Apaixonada por cinema desde muito cedo, começou a estudar de forma mais aprofundada aos 16 anos, quando fez seu primeiro curso de áudio para cinema. Em sua coluna Entre Cenas, analisa tudo que faz o cinema nos transportar para dentro da sala. Com olhar crítico e sensível, convida o leitor a descobrir o cinema de um jeito novo a cada texto.

* Todo o teor textual e de imagens publicados nesta coluna são responsabilidade deste colunista.

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