Finitude, um tema a ser tratado sem tabu

Há assuntos que só entram no nosso campo de visão (e preocupação) quando somos um pouco mais maduros. Lidar com a finitude é um deles. Esses dias vi o trecho de uma entrevista da jornalista Sandra Annemberg que disse pensar muito na morte. Ela explicou que estava muito bem de saúde, tanto física quanto mental, e que o tema lhe era recorrente porque estava beirando os 60 anos. Sandra chegou à conclusão que, obviamente, já viveu mais tempo do que o futuro lhe reserva. E ela vai aproveitar muito bem os próximos anos, vivendo intensamente.

Creio que nós ocidentais não lidamos facilmente com a morte. Já os orientais, influenciados pela cultura budista, têm uma outra abordagem. Eles acreditam que a morte é renascimento. Em vez de preto, usam o branco para celebrar o luto e são mais desapegados da matéria, ao menos teoricamente. Para quem teve alguma influência de religiões cristãs, o caminho até esse entendimento pode ser mais difícil. Mas não dá para evitar o assunto.

Lembro-me da história magnífica do filme “O Sétimo Selo” (Ingmar Bergman/1957) em que um templário se encontra com a morte e, para não ser levado por ela, propõe um jogo de xadrez com a dita cuja. A competição se estende por dias. Assim, o protagonista vai ganhando tempo. Infelizmente não temos essa alternativa.

Normalmente quem já enfrentou a perda de um familiar obrigatoriamente pensa no assunto, mas o tema não está presente em nossas conversas ou preocupações cotidianas. A médica geriatra Ana Cláudia Quintana Arantes trata desse tema com muita autoridade. Ela é autora do livro “A morte é um dia que vale a pena”  que se tornou um sucesso editorial. Também fundou, em São Paulo, a Casa do Cuidar (www.casadocuidar.org.br) que presta cuidados paliativos a pacientes carentes, além de formar profissionais para lidar com pessoas em estado terminal.

Ativando o cérebro

Ana Cláudia tem uma vasta experiência com idosos. Formada em Medicina pela USP, fez  residência em Geriatria e Gerontologia, pós-graduação em Psicologia e em Cuidados Paliativos. Numa entrevista à TV Cultura, de São Paulo, a médica deu alguns conselhos para quem está no processo de envelhecimento. Uma das recomendações da médica é o aprendizado de música que ativa diferentes áreas do cérebro, já que o aluno aprende uma nova linguagem, desenvolve habilidade motora e deve combinar essas habilidades para tocar um instrumento.

Outra sugestão é a prática da meditação que, segundo Ana Cláudia, aumenta a espessura do córtex cerebral, o que faz muito bem. Todas essas atividades podem mitigar os efeitos do envelhecimento e adiar os danos da senilidade. Perguntada sobre se a fé alivia o sofrimento dos idosos, a médica afirma que depende de como a pessoa interage com a fé ou religião. Segundo Ana Cláudia, quem adota uma maneira negativa de lidar com a fé, vê a morte como um castigo de Deus, o que causa muito sofrimento. No entanto, quem tem uma relação positiva com sua religião, considera  a finitude como o caminho natural da vida.

Construindo amizades

Além de buscar novas atividades intelectuais e físicas, outra dica de Ana Cláudia é investir na construção de boas relações. Ao longo da vida é isso que vai fazer a diferença. É com essas amizades que vamos contar. Nossos amigos, ou familiares, é que serão nossa rede de apoio. Ana Cláudia acredita que falar sobre a morte atrai um discernimento para a vida que se quer viver. Não dá para ficar adiando decisões, acreditando que sempre haverá tempo para resolver nossos conflitos. Não estamos jogando uma partida de xadrez interminável. Talvez sejamos apenas um peão, conduzido por forças alheias a nossa vontade.

E você, já pensou sobre morte e finitude?

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Roberto Junior Monteiro, 63 anos, é jornalista e atua em jornalismo rural. Seus interesses passeiam por áreas diversas: Botânica, Cinema, Yoga, Meditação, Música, Desenho e Línguas. Ultimamente tem se dedicado a refletir sobre os desafios do envelhecimento.E-mail: rjrmonteiro@hotmail.com

* Todo o teor textual e de imagens publicados nesta coluna são responsabilidade deste colunista.

 

 

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