Ser 60+: Aposentadoria exige investimento

Tomo emprestado de Marcel Proust, da monumental obra Em busca do tempo perdido, um trecho que me parece uma das melhores definições dos seres humanos: “Se ao menos me fosse concedido um prazo para terminar minha obra, eu não deixaria de lhe imprimir o cunho desse Tempo cuja noção se  me impunha  hoje com tamanho vigor, e, ao risco de fazê-los parecer seres monstruosos, mostraria os homens ocupando no Tempo um lugar muito mais considerável do que o tão restrito a eles reservado no espaço, um lugar, ao contrário, desmesurado, pois, à semelhança de gigantes, tocam simultaneamente, imersos nos anos, todas as épocas de suas vidas, tão distantes- entre as quais tantos dias cabem- no Tempo”.

Hoje consigo entender a profundidade do texto de Proust, não somente por refletir melhor a respeito, como também por viver essa realidade todo tempo.  Assim, vamos mantendo os pés no presente, guiados pelo aprendizado de nossas memórias. É este o mistério humano.

Achava eu que a maturidade me daria mais segurança para combinar essas dimensões, com uma sabedoria compulsória para enfrentar tudo o que surgisse à frente. Ledo engano. O aprendizado continua e com muitos percalços. Mas há anos optei por tornar minha vida mais leve e não arrastar correntes pesadas demais. Larguei mão de me preocupar com coisas sobre as quais não tenho controle.  A terapia me deu ferramentas para lidar com traumas, complexos e medos. Não resolvi todos, mas a maioria deixou de existir.

Percebo, no entanto, que muita gente empurra seus problemas com a barriga, adia decisões até não poder mais. Há quem tenha até dificuldade de verbalizar ou admitir suas angústias e inseguranças para um terapeuta.  Com o tempo essas questões vão se acumulando, ampliadas pela complexidade da convivência em sociedade. Não raro se transformam em um processo depressivo ou crises de ansiedade.  Exercitar a capacidade de autoanálise e de reflexão é um bom começo para encontrar algumas soluções e evitar males maiores.

Os casos de depressão e ansiedade tornaram-se quase epidêmicos ultimamente. A escala do problema é tão alta que o Ministério do Trabalho publicou, em maio deste ano, a NR1 que inclui a saúde mental como um requisito obrigatório para as empresas.  Uma forma de mitigar os casos de depressão e ansiedade ligados ao ambiente de trabalho, causas frequentes de absenteísmo.

Não somente o estresse do trabalho é danoso. Para quem se aposenta, a falta de um compromisso e a sensação de perda de valor por não ser mais produtivo, também podem levar a um quadro depressivo. Por isso é tão importante fazer um plano para chegar à maturidade para lidar com o novo status. Mesmo assim, imprevistos vão acontecer e um pouco de flexibilidade pode ajudar a encontrar um caminho.

Fatores genéticos certamente contribuem para alguns problemas mentais, mas nossas atitudes também têm força. Os especialistas não cansam de ressaltar a importância de exercício físico regular, do desenvolvimento da espiritualidade (eu diria, vida interior), de bons hábitos de sono,  investimento nas interações sociais positivas e autoconhecimento para manter a cabeça em ordem. Se você cuidar da sua saúde, agora, e chegar aos 60+ ouvindo bem, vendo o mundo ao seu redor, com pernas fortes para andar e não viver isolado socialmente, o futuro pode lhe reservar uma vida plena.

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Roberto Junior Monteiro, 63 anos, é jornalista e atua em jornalismo rural. Seus interesses passeiam por áreas diversas: Botânica, Cinema, Yoga, Meditação, Música, Desenho e Línguas. Ultimamente tem se dedicado a refletir sobre os desafios do envelhecimento.E-mail: rjrmonteiro@hotmail.com

* Todo o teor textual e de imagens publicados nesta coluna são responsabilidade deste colunista.

 

 

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