Os 60+ e o mercado imobiliário

O bairro onde moro, em Curitiba, mudou de perfil radicalmente. As casas com quintais foram demolidas, dando lugar a edifícios de apartamentos de classe média. Os prédios seguem o modelo do mercado: pátios ocupados por calçadas e lajes, combinados com jardins pasteurizados e suas espécies exóticas que prestam pouco serviço ambiental.  Pulula a nomenclatura chic/brega das construtoras que apelam para estrangeirismos para dar um ar de sofisticação aos empreendimentos: fire place, pet friendly, gardens, co-working e outros modismos.

Curioso, observo se o mercado está dedicando alguma atenção para a clientela 60+ e, por enquanto, não tenho visto muita coisa interessante. Obviamente deve haver iniciativas que atendam a essa fatia do mercado que escapam do meu radar. Entendo também que, muitas vezes, é preciso esperar um pouco para que as construtoras absorvam as mudanças que estão acontecendo na sociedade e possam oferecer apartamentos e prédios com características que facilitem a vida da população madura. Ou até mesmo que essa população seja importante economicamente para gerar uma demanda específica.

Já soube que em outros estados há construtoras que estão atentando para alguns detalhes quando lançam um novo projeto. Assim, a localização dos empreendimentos passou a dar preferência para bairros com serviços diversos. Isso inclui fácil acesso a padaria, farmácia, hospital ou supermercado. A mudança também passa pela eliminação de escadas nas construções e moradias com espaços integrados.

Além disso, alguns empreendimentos passaram a oferecer área de convivência social, hortas e jardins onde as pessoas podem encontrar os vizinhos ou ter contato com a natureza.  Corredores e portas mais largos. Outra mudança é a substituição do porcelanato e cerâmica por materiais que evitem quedas. Alguns prédios têm até sensores de monitoramento e tecnologia para detectar quedas ou botões de emergência.

Para aumentar seus lucros, ao longo dos últimos anos as construtoras foram optando por plantas cada vez mais compactas. Em alguns casos os banheiros são diminutos, dificultando não só a mobilidade de um idoso, como também de um cadeirante.

Levando-se em conta que o número de idosos no Brasil está aumentando a passos largos e muitos deles moram sozinhos, é de se esperar que as construtoras ofereçam moradias mais adaptadas às necessidades desse público. No entanto, é notório que as construtoras vão atender essa faixa de público apenas se os idosos tiverem poder aquisitivo para pagar por esses benefícios. Do contrário, os apartamentos continuarão a ser construídos para jovens de, no máximo 40 anos, hiper conectados com os avanços tecnológicos e gozando de perfeitas condições de saúde. O que se espera é talvez uma utopia, uma arquitetura que não sirva só ao mercado, mas que seja mais humanizada.

 

 

 

 

 

Viver Melhor 60+
Viver Melhor

Roberto Junior Monteiro, 63 anos, é jornalista e atua em jornalismo rural. Seus interesses passeiam por áreas diversas: Botânica, Cinema, Yoga, Meditação, Música, Desenho e Línguas. Ultimamente tem se dedicado a refletir sobre os desafios do envelhecimento.E-mail: rjrmonteiro@hotmail.com

* Todo o teor textual e de imagens publicados nesta coluna são responsabilidade deste colunista.

 

 

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