Uma das coisas mais marcantes da minha existência sempre foi a crença na razão, no estudo e na inteligência. Esse raciocínio eu herdei, sobretudo, do meu pai. Por anos ele trabalhou como farmacêutico e sempre fez duras críticas às crendices da clientela. Era um tal de gente chegar na farmácia com queimadura coberta com manteiga, cortes tratados com borra de café. Ele ficava fulo da vida. Sempre dizia que essas bizarrices só pioravam a situação. E tinha razão.
A desinformação é um mal antigo. Mas sempre tive a impressão de que, à medida que envelhecem, as pessoas tendem a se apegar mais a suas crendices e, não raro, colocam à frente da ciência, a opinião de algum leigo.
Porém, parece que o domínio das fake news é mais grave ainda. É o que revela uma recente notícia divulgada pelo jornal O Estado de São Paulo (edição de 17.05) que mostra alguns dados do Relatório Especial 2026 do Edelman Trust Institute, sobre Confiança e Saúde, que ouviu 16 mil pessoas, em 16 países. Sete em cada dez pessoas no mundo acreditam que pelo menos uma de seis afirmações amplamente desmentidas sobre saúde é verdadeira.
Entre as afirmações falsas às quais os participantes responderam “acredito que isso é verdade” estão: proteína animal é mais saudável (32%); flúor na água é prejudicial ou inútil para a saúde (32%); os riscos das vacinas infantis superam os benefícios (31%); leite cru é mais saudável do que o pasteurizado (28%); o uso de acetaminofeno/paracetamol durante a gravidez causa autismo (25%) e vacinas são usadas para controle populacional (25%).
Ainda segundo o relatório, entre pessoas com diploma universitário, 69% sustentam pelo menos uma dessas crenças, quase idêntico ao índice das pessoas sem diploma, que chega a 70%. Quando se analisa o espectro político, 78% dos entrevistados de direita sustentam ao menos um desses mitos e 64% dos de esquerda também.
Este comportamento é mais acentuado em países em desenvolvimento do que em países desenvolvidos. Apesar dos pesares, os EUA, sequer aparecem na metade superior dos países pesquisados. Ponto para eles.
Os pesquisadores do Edelman Trust Institute acompanham os dados desde o lançamento do relatório específico de saúde em 2021. Eles observam uma “erosão social” ao longo de anos que alimenta essa tendência. “Existem medos- medos cronicamente subestimados ou não abordados. Isso começa a levar a uma erosão do tecido social. Surge a polarização, que leva à paralisia, que leva ao ressentimento, que leva ao isolamento”, afirma Dave Bersoff chefe de pesquisa do Instituto.
Para ele, “há um endurecimento na forma como as pessoas se relacionam com quem está fora do próprio grupo. “Essa ideia de que não posso confiar em ninguém que não seja como eu, então qualquer pessoa que não seja como eu em crenças, valores ou origem cultural é imediatamente vista com desconfiança, porque acredito que quer tirar o que mereço ou que qualquer ganho dela vem às minhas custas”, conclui o pesquisador.
Além da desinformação que corre solta, há uma perda de confiança na própria capacidade das pessoas de tomar decisões de saúde. A confiança pública em encontrar respostas confiáveis e tomar decisões informadas caiu 10 pontos porcentuais em apenas um ano, para 51%. Já a confiança na mídia para cobrir temas de saúde com precisão permanece 11 pontos abaixo do nível pré-covid, em apenas 46% globalmente, de acordo com o relatório.
Então, não importa a idade, o melhor é buscar informação de quem entende do assunto, para tomar decisões mais acertadas, sobretudo num campo tão complexo como saúde. E, sobretudo, evitar a disseminação desses mitos que não se sustentam quando são iluminados pela ciência.





