Quem será a próxima vítima do etarismo

Todo preconceito se apoia na falta de conhecimento ou na ausência de caráter. Quando se desconhece outras realidades e culturas a discriminação se instala, com direito a uso capião, no cérebro do indivíduo.  A falta de caráter é um caso complexo, envolvendo toda a formação do indivíduo.

O ser humano é pródigo em criar formas de se sentir especial e discriminar o outro.  Está aí o Etarismo que não me deixa mentir. O preconceito contra os mais velhos não é novo, mas ganha nova roupagem. Vem carregado de justificativas sociais, tecnológicas ou estilísticas. Esperemos que o envelhecimento geral da população brasileira mude esse panorama.

Uma das mais recentes manifestações de etarismo se deu recentemente e teve como alvo a cantora Madona. A pop star apareceu no Festival Cochella, ao lado da cantora Sabrina Carpenter. Não demoraram para surgir na internet comentários tentando ridicularizar Madona.

Neste caso, há um complicador. Madonna comete dois pecados mortais ao mesmo tempo: é mulher e já está com 67 anos. O que muita gente esperava é que, a essa altura do campeonato, ela se retirasse da ribalta, ficasse em casa gastando seus milhões de dólares ou fazendo crochê, deixando os palcos para as beldades juvenis que tanto agradam a audiência. Esquecem-se que ela é uma artista que sempre habitou o território da provocação. Não é agora, que Madonna vai se render ao conservadorismo como tem feito muita gente.

Numa sociedade desigual como a nossa, o homem tem mais direito de envelhecer. Então, ninguém estranha quando Mick Jagger surge no palco rebolando e cantando a plenos pulmões. Neste caso ele é moderno e atualizado. Já Madonna, “é uma mulher que não aceita a passagem do tempo”, segundo alguns internautas.

As diversas faces do etarismo

Quem dera esse preconceito fosse dirigido apenas a uma artista que luta para manter-se artisticamente relevante. O etarismo se apresenta com diversas faces, às vezes num comentário supostamente engraçado ou numa “brincadeira” de mal gosto. Todo mundo, uma hora pode ser vítima de discriminação por causa da idade.

Grande parte desse preconceito parte de numa visão irreal do que é ser idoso. Até pouco tempo atrás quem ultrapassasse os 60 anos ganhava, compulsoriamente, o direito a se aposentar e a cuidar dos netos. Hoje em dia os idosos são tão diversos quanto qualquer categoria da população. Muita gente, nesta fase da vida, continua interessada em trabalhar, conhecer novas tecnologias, estabelecer laços sociais, praticar esporte ou fazer sexo. Estão interessados em viver, de acordo com suas condições físicas, psicológicas e financeiras.

O etarismo pode ter um impacto fundamental na vida do idoso. A Organização Mundial da Saúde já concluiu que essa discriminação pode gerar no idoso um sentimento de ser indesejado, socialmente rejeitado. Além disso, de tanto ouvir opiniões preconceituosas, o indivíduo pode assumir o estereótipo que lhe é imposto. Em ambientes discriminatórios, onde a fala ou opinião do idoso são ignoradas, ele pode simplesmente ser levado a se isolar, já que sente que não tem importância.

O etarismo se soma a mais um dos preconceitos contra os quais devemos lutar. Que os idosos possam viver plenamente, se quiserem rebolar como Ney Matogrosso ou barbarizar como Madonna e Mick Jagger, que o façam. Eles têm direito adquirido. Só não pode ser um idoso chato.

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Roberto Junior Monteiro, 63 anos, é jornalista e atua em jornalismo rural. Seus interesses passeiam por áreas diversas: Botânica, Cinema, Yoga, Meditação, Música, Desenho e Línguas. Ultimamente tem se dedicado a refletir sobre os desafios do envelhecimento.E-mail: rjrmonteiro@hotmail.com

* Todo o teor textual e de imagens publicados nesta coluna são responsabilidade deste colunista.

 

 

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