Ney Matogrosso é meu modelo de idoso. Do alto de seus 84 anos continua irreverente, saudável de corpo e alma. E o melhor, mantém a coerência de uma trajetória que sempre deu uma banana para o status quo. É assim que eu quero envelhecer.
A relevância de Ney lhe rendeu uma justa homenagem da escola de samba Imperatriz Leopoldinense no carnaval deste ano. E lá estava ele no alto de um carro alegórico, sendo ovacionado na Sapucaí. Admirável, invejável e desejável.
Hoje em dia, com tanta gente fora dos padrões fazendo sucesso na música e nas redes sociais, pode parecer exagerada a homenagem da Imperatriz Leopoldinense a Ney Matogrosso. Mas é preciso voltar um pouco no tempo para entender a dimensão do artista.
Eu me lembro bem da primeira vez que vi, pela televisão, a uma apresentação dos Secos& Molhados, grupo que lançou Ney Matogrosso. Foi nos anos 70, eu tinha pouco mais de dez anos. Aquilo não se encaixava em nada que já tinha visto. A música era envolvente e o vocalista do grupo tinha a força da natureza.
Visivelmente era um homem e expunha o corpo e os pelos, como ninguém tinha feito. Ney passou alguns anos usando maquiagem para suas performances. Ninguém sabia direito quem era o cara que rebolava e atiçava a fantasia do público. Tempos depois, resolveu mostrar a cara.
Numa entrevista, ele explicou que a pintura no rosto serviu para proteger sua identidade. Ele queria andar na rua sem ser reconhecido ou incomodado. Para Ney, o importante era que falassem da sua arte, não dele.
Lembro do show histórico no qual Ney Matogrosso começou a cantar num ginásio de esportes e o público abafava sua performance, gritando “Viado! Viado!”. Ele, impassível, continuou sua apresentação. Aos poucos, o público se aquietou e passou a ouvi-lo. Foi a vitória de um talento.
Não foi a única vez em que Ney Matogrosso deu um “tapa de luva de pelica” na cara dos conformistas. Ele sempre tem respostas inesperadas e originais que vão contra a imagem contemporânea de ídolos que fazem de tudo para agradar a audiência. E é essa postura que me encanta nele.
Nas aparições de Ney Matogrosso na mídia, nunca o vi ostentar uma persona de “divo”, de intratável ou pedante. Já o encontrei pessoalmente duas vezes, nos aeroportos da vida. Ele sempre ”low profile”, discreto, fala baixo e faz de tudo para não ser notado. Ney é o tipo de pessoa que separa muito bem sua vida particular, da personagem que criou no palco. Tanto assim, que o que ele faz fora dos holofotes, pouca gente sabe.
Além de cantor, Ney também já atuou no Cinema, fez trabalhos como iluminador (dos bons), diretor e coreógrafo. Ele sabe que tem um público fiel, mas parece que o segredo para se manter em alta é ser fiel a si mesmo. Ele já disse que é um sobrevivente. Não faz o gênero ex-pecador e agora convertido. Ney afirma que usou várias drogas e cometeu vários excessos. Mas hoje se cuida. O resultado está aí… 84 anos e ainda é capaz de dançar, no alto de um carro alegórico, por horas. Isso não é para qualquer um. Só para um super-herói que não usa capa, mas abusa dos brilhos, plumas e sensualidade. Vida longa para Ney Matogrosso.
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