O queijo! A Lenda!

Por que contar a história de um queijo que não nasceu no Paraná? Porque o queijo nunca foi só território. Ele é encontro. É vínculo. E, neste caso, é também amizade. A amizade que eu, Luciana Matsuguma, construí com Juliana Jensen — feita de conversas longas, respeito, admiração e da mesma paixão pelo queijo. Há relações que se fortalecem à mesa, diante de um bom queijo, onde histórias se cruzam e afetos se tornam permanentes. Às vezes, o melhor presente que o queijo nos oferece não é o sabor, mas a amizade que ele ajuda a criar.

E das conversas que tive com a Juliana Jensen, uma delas me chamou atenção – a sua relação com o mundo do queijo. Vai além da sua profissão, está no sangue! O profissionalismo e amor pelo que ela faz está escrito na sua história familiar.

Como começou a minha história com o queijo

O CONVITE – Foto: Juliana Jensen

 

Juliana Jensen fala que sua relação com o queijo começou muito antes da sua existência. Ela nasceu na sua família. Seu avô Karl Emil Jensen, veio da Dinamarca ainda jovem, formado como técnico em laticínios, para trabalhar com queijos no Brasil. Aceitou o convite do Sr. Sorensen para passar uma temporada no Sul de Minas Gerais e iniciar a produção de queijos finos na região. O que seria temporário virou uma vida inteira dedicada ao leite, ao tempo e à criação de inúmeros queijos.

Juliana cresceu nesse universo, cercada por aromas, formas e histórias que se repetiam a cada produção. Seguiu esse caminho de forma natural. Ela se formou engenheira de alimentos pela Universidade Federal de Lavras, e iniciou sua carreira na área de qualidade. Com o tempo, implantou o setor de Pesquisa e Desenvolvimento da companhia — espaço onde hoje faz exatamente o que mais ama: criar queijos.

 

Juliana Jensen – Foto: Luciana Matsuguma

Testar sabores, explorar texturas, combinar ingredientes e pensar novas ocasiões de consumo é o que move os dias de Juliana Jensen – para ela, criar um queijo é contar uma história com os sentidos.

Juliana Jensen escolheu  o queijo A Lenda porque  é, literalmente, parte da sua história. Entre os queijos autorais da Cruzília, ele é um dos seus preferidos — talvez porque carregue uma memória que atravessa gerações.

O fermento utilizado em sua produção foi encontrado dentro de um cofre de uma antiga fábrica dinamarquesa, desativada em 1924. Foi ali que seu avô Karl Emil Jensen trabalhou até seus últimos dias. Essa mesma fábrica, cheia de lembranças e silêncios, hoje abriga a planta de fabricação dos Queijos Cruzília.

Após a descoberta, o fermento passou por análises para identificação dos microrganismos presentes, dando origem a uma receita única, construída a partir dessa cultura láctica especial. Juliana, conta que o processo é totalmente manual: o queijo é prensado à mão, o que garante um formato exclusivo. Apenas cinco peças são produzidas por dia.

Com casca negra, massa macia e sabor marcante, apresenta notas levemente adocicadas e passa por 90 dias de maturação. Um queijo que exige tempo, cuidado e respeito. Talvez por isso tenha conquistado diversas premiações em concursos nacionais e internacionais.

A degustação: quando o queijo escolhe ficar

Eu, Luciana Matsuguma fiquei curiosa e logo comprei o queijo e posso dizer que degustar o queijo A Lenda é um exercício de escuta sensorial. Ele não chega com pressa, nem com excessos. Ao contrário do que se espera de um queijo premiado, não há explosão imediata de sabores. Há harmonia!

O aroma é intenso, quase provocativo, mas quando o queijo toca a boca, entrega suavidade. A textura é macia, delicada, e o sabor se revela leve — não marcante no sentido óbvio, mas profundamente presente. É um queijo que acolhe. Que aquece. Que fica. Na degustação, surgem memórias claras de fazenda: o sabor láctico, os estábulos, o feno seco, a presença dos animais. Não como algo rústico ou agressivo, mas como lembrança boa, quase ancestral. Ele não disputa atenção; ele constrói vínculo.

A Lenda – Foto: Ultracheese

Talvez você espere impacto. Mas o que ele entrega é memória!!

E é exatamente por isso que ele é uma lenda: porque não tenta conquistar você. Ele escolhe permanecer.

Porque, no fim, todo queijo tem história.

E alguns viram laços — de amizade, de memória e de pertencimento — que permanecem muito depois da última fatia.

Juliana e Luciana – Além dos queijos Foto: Luciana Matsuguma

 

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Todo Queijo Tem História!
Todo Queijo

Luciana Shizue Matsuguma é profissional no setor rural e apaixonada pelo mundo dos queijos. Integrante da Comissão organizadora do Prêmio Queijos do Paraná e membro da Guilde Fromage.

* Todo o teor textual e de imagens publicados nesta coluna são responsabilidade deste colunista.

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