A velhice tem história

E a velhice? A cada vez que o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) publica a expectativa de vida da população do país, torna-se mais urgente definir como lidar com essa população que está vivendo mais. Não planejar ações dirigidas para o envelhecimento, de leis a atitudes individuais, é caminhar para uma crise sem precedentes.

Entender as mudanças impostas pelo envelhecimento e, a partir daí, estabelecer novas rotinas é o desafio que se apresenta a cada um de nós. Entretanto, é curioso ver como a ideia de envelhecimento vem mudando ao longo dos anos. E essa não é uma impressão pessoal porque agora tenho 62 anos. Já existem estudos e livros que mostram essa mudança.

A historiadora Mary del Priore lançou, este ano, o livro “Uma história da velhice no Brasil”, pela editora Autêntica. A obra dá uma visão de como o conceito de velhice veio se transformando até chegar ao que entendemos hoje como velho ou idoso.

Para começar, a historiadora explica que a velhice no passado tinha indicadores bem definidos: a impotência para os homens e a menopausa feminina. Eram esses fatores que determinavam que alguém se tornava velho e simplesmente se aceitava esse fato. As coisas só começaram a mudar no século XIX. É dessa época, por exemplo, que surgem os produtos que ajudam a envelhecer melhor. Incluem-se aí as dentaduras, bengalas, tintura para cabelos e barbas. Segundo Mary, é a partir do momento que o “velho” passa a ser consumidor que ele ganha algum respeito.

O detalhe curioso era que os homens eram o público alvo esses produtos. À mulher cabia aceitar que a partir do casamento tornava-se “dona” e tinha que lidar com as mudanças físicas.  Apesar dessa diferença por gênero, envelhecer era um processo natural, já que não havia o culto à juventude. Mas os idosos não tinham nenhuma distinção ou tratamento especial, eles viviam como podiam.

A Semana de Arte Moderna, em 1922, aprofundou o fosso entre as gerações, com a juventude desempenhando um papel revolucionário nas artes e na forma de pensar, desvalorizando tudo o que veio antes. Um alento veio em 1924 quando os idosos passaram a ter o direito de receber o benefício da aposentadoria. Vamos caminhando até os anos 70, quando surge a Geriatria, nos EUA, despertando a atenção para a saúde dos mais velhos.

No Brasil, começa a ser feita a conceituação do que é o idoso. São desta época as primeiras campanhas para que a população mais velha tenha cuidados médicos, além de programas para estimular a participação social dessa população. Por outro lado, é neste período que a cirurgia plástica se populariza no país, o que significa que a aparência jovem passou a ser o desejo da maioria das pessoas.

Finalmente chegamos a 1988 quando a Constituição Brasileira cria o SUS e estabelece, no artigo 230, que a família, a sociedade e o Estado têm o dever de amparar as pessoas idosas, assegurando sua participação na comunidade, defendendo sua dignidade e bem-estar e garantindo-lhes o direito à vida.

O livro de Mary Del Priore também mostra que os antigos idosos enfrentavam essa etapa da vida com uma certa resignação, mas também com muita dignidade. É um ensinamento que anda se perdendo. Conhecer um pouco da história da velhice no Brasil nos dá ferramentas para entender como formamos nosso próprio conceito do que é ser idoso/velho/60+. Quem sabe esse entendimento nos deixe mais tranquilos a respeito do futuro que nos aguarda. Boa leitura!

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Roberto Junior Monteiro, 63 anos, é jornalista e atua em jornalismo rural. Seus interesses passeiam por áreas diversas: Botânica, Cinema, Yoga, Meditação, Música, Desenho e Línguas. Ultimamente tem se dedicado a refletir sobre os desafios do envelhecimento.E-mail: rjrmonteiro@hotmail.com

* Todo o teor textual e de imagens publicados nesta coluna são responsabilidade deste colunista.

 

 

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