Pulp Fiction (1994) é um um clássico atemporal que desfila entre fé e violência

Pulp Fiction é aquele tipo de filme que muita gente acha que conhece só por existir nos clássicos do cinema, mas quando você realmente assiste percebe que nada te prepara para a experiência. Ele foi lançado em 1994, dirigido por Quentin Tarantino, e virou um marco do cinema misturando humor com violência, cotidiano com caos, conversa banal com dança. É um filme sobre pessoas fazendo escolhas ruins, mas contado com uma personalidade tão forte que você nem consegue descrever sem gesticular.

E, para mim, a prova de que nada ali é aleatório está numa das primeiras cenas que todo mundo lembra: os dois assassinos conversando sobre hambúrguer no carro. O famoso Royale with Cheese. Não é sobre comida. É sobre como Tarantino apresenta os personagens Jules (Samuel L. Jackson) e Vicent (John Travolta) sem parecer que está apresentando, sabe como? É sobre criar intimidade entre dois caras que matam pessoas como quem cumpre expediente. A naturalidade deles conversando sobre McDonald’s enquanto vão tirar a vida de alguém já te avisa, sem você perceber, qual é o humor, o cinismo e o ritmo desse universo.

Mas o filme não vive de uma cena só. Ele vai te ganhando aos poucos, te puxando por conversas absurdas, momentos que parecem sem importância, pequenas piadas que dizem mais sobre os personagens do que qualquer discurso dramático. E no meio de tudo isso, surge a cena que define o filme pra mim: a dança da Mia Wallace, interpretada pela incrível Uma Thurman, com o Vincent no Jack Rabbit Slim’s – uma boate/restaurante temático com referências de música e filmes.

Tem muita coisa sensacional em Pulp Fiction, mas essa dança é outra categoria. É um corte seco do caos para o charme. É leve, é solta, é quase ingênua – e é justamente por isso que funciona. A química ali não é de romance, é estética. É estilo puro, embalado por uma música que gruda no corpo – acontece até um Claudinho e Bochecha no meio. É a forma como eles se preparam, tiram os sapatos e só deixam fluir. É a cena que eu vi, revi, revisei e que ficou tanto tempo na minha cabeça que vai virar tatuagem. Não porque é “bonita”, mas porque captura a energia inteira do filme: um momento simples, aparentemente à toa, que vira ícone.

E o mais louco é que, quando você presta atenção, vê como tudo ao redor dá suporte a isso. A fotografia quente, meio granulada, que faz o restaurante parecer um sonho vintage. A trilha sonora que não só acompanha, mas conduz, aquele rockabilly bem divertido. O enquadramento que é despretensioso, aparentemente, mas calculado para fazer sentir que você está ali, sentando numa mesa qualquer, observando sem querer, tomando um milk-shake e comendo um hamburguer.

Isso volta para a narrativa como um todo. Pulp Fiction parece caótico, mas nunca é. A história vai e volta no tempo com a maior naturalidade do mundo, mas cada pontinha retorna de algum jeito, cada fala tem função, cada cena esbarra em outra lá na frente. Até quando Tarantino parece improvisar, ele está construindo alguma coisa. É um roteiro que não pede para ser entendido; ele simplesmente funciona, porque ele confia na inteligência das pessoas em construir as histórias no vai e vem. ELE NÃO DEIXA PONTAS SOLTAS (obrigada, Mr. Tarantino).

Tem um determinado momento que eu parei e me perguntei: Certo, mas sobre o que fala o filme? Porque além da história que se inicia, tem, em paralelo, a história do Butch (Bruce Willis), que se entrelaça sem tanta conexão, mas ao mesmo tempo, ambos os enredos caminham juntos. É bem, bem interessante!

E lá no meio, como quem não quer nada, ele já planta a semente de Kill Bill – Volume 1 (2003) quando Mia descreve o piloto da série em que atuou. É tão discreto que você só percebe depois, quando conhece o outro filme – e aí entende a genialidade. Não são obras separadas, são capítulos de um mesmo universo ampliado.

Resumindo…

No fim, é isso: Pulp Fiction é um filme que mistura banalidade e impacto, violência e humor, caos e precisão. Ele faz você rir quando não devia, pensar quando não percebeu que estava pensando, e voltar a cenas que pareciam pequenas, mas que estão costuradas na memória. E mesmo quem nunca assistiu já foi tocado por algum pedaço dele sem saber.

Mas quando você assiste, de verdade, aí sim dá pra sentir a força. É um filme pra viver.

Vale muito o play. Ele está disponível (gratuitamente) no Mercado Play e nas plataformas da Netflix e Paramount +. Bora ver? Assista o trailer.

Avaliação:⭐⭐⭐⭐⭐

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ENTRE
CENAS

Heloísa Ribas é jornalista e pós-graduada em Audiovisual. Apaixonada por cinema desde muito cedo, começou a estudar de forma mais aprofundada aos 16 anos, quando fez seu primeiro curso de áudio para cinema. Em sua coluna Entre Cenas, analisa tudo que faz o cinema nos transportar para dentro da sala. Com olhar crítico e sensível, convida o leitor a descobrir o cinema de um jeito novo a cada texto.

* Todo o teor textual e de imagens publicados nesta coluna são responsabilidade deste colunista.

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