☀️ Olá, queridos leitores do Comer e Curtir! Hoje a coluna traz uma história que aquece o coração e me enche de orgulho. É sobre longevidade, sim, mas também sobre amor, escolhas conscientes e aquele sabor de comida feita com carinho que marca gerações. Esta edição é uma homenagem ao meu pai, Vilson Kupczik, que acaba de completar 85 anos em plena forma física e mental.
E quando digo plena forma, não estou exagerando. Meu pai ainda dirige, trabalha como consultor de vendas de extintores na Extinpag e atua como árbitro de bolão da Federação Paranaense. Lúcido, ativo e, acima de tudo, feliz. A prova viva de que envelhecer bem não é sorte – é resultado de décadas de pequenas escolhas diárias.
A história dele com o esporte começou cedo. Foi jogador de futebol na juventude, e foi justamente na antiga arena da baixada que conheceu minha mãe. Em outras palavras, devo minha existência ao Furacão! Quem diria que o esporte traria não apenas saúde, mas o encontro que formaria toda uma família?
Quando meu pai deixou o futebol para buscar estabilidade numa multinacional – naquela época não se vivia de bola, jogava-se por amor à camisa – o movimento nunca parou. O esporte se transformou, mas permaneceu. E esse é o primeiro segredo que quero compartilhar com vocês.
Os 5 segredos de longevidade do meu pai
1. Movimento como estilo de vida
Lembro da infância como se fosse ontem. Meu pai brincando com os três filhos – uma menina e dois meninos – sempre com alguma atividade física envolvida. O futebol com os amigos aos finais de semana era sagrado. No Clube Juventus, onde passei a infância inteira, ele me levava para nadar. Inclusive na piscina dos adultos, uma travessura deliciosa que guardo com carinho na memória.
Depois veio o bolão – esporte parecido com o boliche, mas com bola mais pesada e regras próprias. Tanto no Juventus quanto no Clube Thalia, foram anos de campeonatos, festas e amizades que tornavam a vida mais leve. O movimento constante, sem obsessão ou competição exagerada, apenas pelo prazer de se mexer.
Segundo um estudo publicado no British Journal of Sports Medicine, a atividade física regular ao longo da vida está associada à redução de 30% no risco de morte prematura e melhora significativa na qualidade de vida na terceira idade. Não é sobre ser atleta. É sobre não parar.
2. Alimentação consciente e natural
O corpo magro do meu pai sempre chamou atenção – não à toa o apelido “Bacalhau” pegou desde os tempos de futebol. Mas o segredo não estava em dietas da moda ou restrições. Estava, e ainda está, na simplicidade.
Muita salada. Muitas frutas. Muita água. E, principalmente, comida de verdade. A rotina alimentar dele é quase um ritual de autocuidado:
Em jejum: geleia real de abelhas da Unimel. Uma colherzinha todo dia!
Café da manhã: café com leite, pão com manteiga e queijo, frutas frescas como mamão e melão.
Almoço: o clássico arroz com feijão, uma proteína (carne, aves ou peixe), legumes, salada verde caprichada e sempre uma fruta de sobremesa – laranja ou mexerica.
Café da tarde: repete o café da manhã, mas com direito a um docinho. Porque, como ele mesmo diz, ninguém é de ferro!
Essa forma de comer, que parece tão básica, encontra respaldo na ciência moderna. Uma pesquisa publicada na revista The Lancet demonstrou que dietas ricas em frutas, vegetais e grãos integrais estão associadas a maior longevidade e menor incidência de doenças crônicas não transmissíveis. Os antioxidantes presentes nesses alimentos combatem o envelhecimento celular e protegem contra problemas cardiovasculares, diabetes e até alguns tipos de câncer.
O mais importante: minha mãe sempre cuidou dessas refeições com amor. Cozinha caseira, da melhor qualidade. E esse carinho, tenho certeza, também alimenta.
E aqui entra um detalhe que mostra o quanto meu pai valoriza essa parceria e o cuidado mútuo. Quando descobrimos que minha mãe era celíaca – em plena pandemia de Covid, num momento já tão delicado – meu pai nem pensou duas vezes. Aderiu completamente à dieta sem glúten junto com ela. Não por obrigação médica, mas por solidariedade, por amor, por querer compartilhar cada refeição sem que ela se sentisse sozinha nessa mudança.
Esse gesto aparentemente simples revela muito sobre quem ele é. Mostra que alimentação saudável, para meu pai, nunca foi sobre rigidez ou sacrifício individual. Sempre foi sobre conexão, sobre estar junto, sobre adaptar-se às necessidades de quem se ama. E, curiosamente, essa transição para uma alimentação sem glúten só reforçou ainda mais a qualidade da comida em casa – mais vegetais, mais preparações naturais, menos processados.
3. A arte de comer devagar
Aqui vai um detalhe curioso: meu pai não sabe fritar um ovo. Mas sabe, com maestria, fazer algo que poucos dominam nos dias de hoje – comer devagar. Ele é sempre o último a terminar a refeição. E faz isso com calma, saboreando cada garfada, presente naquele momento.
Esse hábito, que pode parecer simples, tem impacto profundo na saúde. Um estudo da Universidade de Kyushu, no Japão, acompanhou mais de 60 mil pessoas durante cinco anos e descobriu que aqueles que comiam devagar apresentavam menor risco de obesidade, síndrome metabólica e problemas cardiovasculares (HURST; FUKUDA, 2018).
A explicação é fisiológica: quando mastigamos bem e comemos com calma, damos tempo para o cérebro receber os sinais de saciedade, que levam cerca de 20 minutos para serem processados. Além disso, a mastigação adequada facilita o trabalho das enzimas digestivas, melhora a absorção de nutrientes e reduz problemas gastrointestinais.
Transformar a refeição num momento de atenção plena, e não apenas de consumo rápido, é uma forma de meditação cotidiana. E meu pai, mesmo sem saber todos esses termos científicos, sempre praticou isso.
4. Hidratação como prioridade
“Tome muita água!” É uma das frases que mais ouvi ao longo da vida. E meu pai não apenas repete – pratica. A garrafa de água está sempre por perto, e a hidratação é levada a sério.
Água não é glamourosa como superalimento da moda, mas é essencial. Ela regula a temperatura corporal, transporta nutrientes, elimina toxinas, mantém a pele saudável e garante o bom funcionamento dos rins. Na terceira idade, quando a sensação de sede diminui naturalmente, manter o hábito de beber água regularmente se torna ainda mais crucial.
5. Família em primeiro lugar
Este é, sem dúvida, o pilar mais importante. Meu pai sempre teve uma frase como norte: “Família em primeiro lugar“. E outra, igualmente linda: “A alimentação em família é um momento único e deve ser momento de celebração”.
E foi exatamente isso que construiu ao lado da minha mãe. Três filhos íntegros e realizados. Três netos com quem brincou bastante, hoje já adultos. Uma jornada de dedicação que atravessou momentos difíceis e celebrou as conquistas.
Pesquisas na área de gerontologia mostram que vínculos familiares fortes e relações sociais saudáveis estão entre os fatores mais importantes para a longevidade e a saúde mental na terceira idade. O afeto, o sentimento de pertencimento e a sensação de propósito que vêm dessas conexões têm impacto direto no sistema imunológico e na qualidade de vida.
O que a ciência diz sobre envelhecer bem
Os hábitos do meu pai não são apenas sabedoria popular transmitida entre gerações. São práticas validadas pela ciência contemporânea.
Um dos estudos mais abrangentes sobre longevidade, conduzido nas chamadas “Zonas Azuis” – regiões do mundo onde as pessoas vivem mais e melhor –, identificou características comuns entre os centenários: movimento natural incorporado à rotina, dieta baseada em plantas, senso de propósito, controle do estresse e conexão com a comunidade.
Meu pai, mesmo sem conhecer essas pesquisas, intuitivamente seguiu esses princípios. O esporte como diversão, não como obrigação. A comida natural, sem processados ou exageros. A calma ao comer. A água sempre presente. E, principalmente, o amor à família como centro de tudo.
É interessante notar como a ciência, com toda sua tecnologia e metodologia, muitas vezes acaba confirmando aquilo que nossos avós já sabiam. Envelhecer bem não exige fórmulas mágicas ou suplementos caríssimos. Exige, sim, consistência em escolhas simples, mas profundas.
Receita tradicional: bacalhau ao forno completo

E agora, como homenagem ao meu pai – carinhosamente apelidado de “Bacalhau” – divido com vocês a receita do prato preferido dele. Uma receita que minha mãe preparou durante décadas, especialmente nos domingos em família e na Páscoa.
Este prato é mais do que comida. É memória afetiva em forma de camadas: as batatas douradas como base sólida, o bacalhau desfiado simbolizando sabedoria acumulada, o queijo gratinado representando o carinho que une tudo.
Ingredientes (serve 5 pessoas)
1. 600g de bacalhau do Porto dessalgado;
2. 6 batatas médias;
3. 4 ovos cozidos;
4. 2 cebolas grandes;
5. 1 pimentão vermelho;
6. 3 tomates médios maduros;
7. 100g de azeitonas pretas sem caroço;
8. 3 colheres de sopa de alcaparras;
9. 200ml de creme de leite fresco;
10. 100g de queijo parmesão ralado;
11. Azeite extravirgem (aproximadamente 4 colheres de sopa);
12. Sal e pimenta-do-reino a gosto.
Modo de preparo
1. Comece pelas batatas. Cozinhe-as com casca em água fervente por cerca de 15 minutos – o ponto ideal é ficarem macias, mas ainda firmes. Deixe esfriar, descasque e corte em rodelas de meio centímetro. Reserve.
2. Desfie o bacalhau em lascas médias, retirando qualquer espinha que encontrar pelo caminho. Reserve.
3. Corte os ovos cozidos em rodelas uniformes. Reserve.
4. Agora vem uma etapa fundamental: a cebola caramelizada. Corte as cebolas em fatias finas e leve ao fogo baixo com um fio de azeite. Tenha paciência – são necessários uns 20 minutos para elas ficarem douradas e macias, quase meladas. Não apresse esse processo. Reserve.
5. Pré-aqueça o forno a 180°C.
6. Unte generosamente uma forma de vidro refratária grande (cerca de 30x40cm) com azeite extravirgem. Não economize – esse azeite vai dar sabor e dourar as batatas.
7. Comece a montagem criando a primeira camada: forre o fundo da forma com as rodelas de batata, formando uma base uniforme.
8. Distribua o bacalhau desfiado por cima das batatas, espalhando bem.
9. Adicione as rodelas de tomate, distribuindo por toda a superfície.
10. Coloque as tiras de pimentão vermelho e as rodelas de ovos cozidos, criando um mosaico de cores.
11. Espalhe a cebola caramelizada – esse é o ingrediente que vai amarrar todos os sabores.
12. Distribua as azeitonas pretas e as alcaparras, dando aquele toque salgado característico.
13. Regue tudo com o creme de leite, usando uma colher para espalhar uniformemente.
14. Salpique generosamente o queijo parmesão ralado.
15. Finalize com um último fio de azeite extravirgem e pimenta-do-reino moída na hora.
16. Leve ao forno por 30 a 45 minutos, até a superfície ficar dourada e borbulhante. Você vai sentir o aroma tomando conta da cozinha.
Dicas importantes
• O bacalhau do Porto normalmente já vem dessalgado, pronto para usar. Se optar por outro tipo, deixe de molho trocando a água a cada 8 horas por pelo menos 24 horas.
• A cebola caramelizada não é opcional – é ela que traz profundidade ao prato. Não substitua por cebola crua e não pule essa etapa.
• Você pode preparar todos os ingredientes com antecedência e montar na hora de levar ao forno. Isso facilita muito quando se tem convidados.
• Sirva acompanhado de um vinho branco seco e uma salada verde bem simples. Como meu pai apreciaria.
Celebrando a vida, uma garfada por vez
Esta receita de bacalhau carrega mais do que ingredientes e técnicas. Carrega história, afeto e os ensinamentos silenciosos de quem construiu uma vida plena com escolhas simples, mas consistentes.
Os segredos da longevidade do meu pai não estão em fórmulas complexas ou inacessíveis. Estão no movimento constante, na alimentação natural, no hábito de beber água, na calma ao comer e, principalmente, no amor à família. São princípios que qualquer pessoa pode incorporar, em qualquer idade.
Aos 85 anos, meu pai é a prova de que envelhecer pode ser sinônimo de vitalidade, lucidez e alegria. E me inspira todos os dias a fazer escolhas que honrem não apenas o presente, mas também o futuro que estou construindo.
Espero que essa história e essa receita inspirem vocês da mesma forma. Preparem esse bacalhau, reúnam as pessoas que amam ao redor da mesa, comam devagar saboreando cada momento, e celebrem a vida. Porque, como meu pai sempre diz, “a alimentação em família é um momento único e deve ser momento de celebração”.
Aprecie sem moderação! 💚🍽️
Fotos: Vanessa Kupczik, Leonardo AI
Referências:
AFSHIN, A. et al. Health effects of dietary risks in 195 countries, 1990–2017: a systematic analysis for the Global Burden of Disease Study 2017. The Lancet, v. 393, n. 10184, p. 1958-1972, 2019.
BUETTNER, D.; SKEMP, S. Blue Zones: lessons from the world’s longest lived. American Journal of Lifestyle Medicine, v. 10, n. 5, p. 318-321, 2016.
HOLT-LUNSTAD, J.; SMITH, T. B.; LAYTON, J. B. Social relationships and mortality risk: a meta-analytic review. PLoS Medicine, v. 7, n. 7, e1000316, 2010.
HURST, Y.; FUKUDA, H. Effects of changes in eating speed on obesity in patients with diabetes: a secondary analysis of longitudinal health check-up data. BMJ Open, v. 8, n. 1, e019589, 2018.
LEAR, S. A. et al. The effect of physical activity on mortality and cardiovascular disease in 130 000 people from 17 high-income, middle-income, and low-income countries: the PURE study. The Lancet, v. 390, n. 10113, p. 2643-2654, 2017.
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