60+ estão fadados ao conservadorismo?

É pouco comum que um jovem ou adulto pense em que tipo de idoso ele quer ser. Gasta-se bastante tempo refletindo sobre a trajetória profissional ou o que fazer com o dinheiro que se ganha. Tudo dentro da normalidade. A velhice vai sendo postergada, como se fosse possível adiá-la. Porém, muitas vezes ela chega e nos vemos transformados num modelo bem distante do ideal ou, pior, encarnamos tudo o que criticávamos em nossos pais e avós. É quase como viver os dilemas do personagem de Jack Nicholson em “As confissões de Schmidt”.

Conheço muita gente que era libertária e cheia de atitude aos 30 anos e hoje nos 60+ é quase retrógrada, sobretudo na área dos costumes. Para infelicidade geral, parece não ser um fenômeno isolado, mas um fato da vida.  A ciência aponta algumas razões para isso.

Alguns estudos mostram que a curiosidade intelectual tende a diminuir na velhice e isso explica, em parte, o aumento do conservadorismo ou de uma certa regressão dos mais velhos. No entanto, vale lembrar que essa curiosidade difere entre as pessoas, o que está ligada diretamente à personalidade de cada um. Quem tem mais abertura para novas experiências tende a buscar novos interesses estéticos, culturais e pode assumir atitudes anticonformistas. Os mais reclusos, tomam o caminho oposto.

A ciência ainda mostra que a capacidade de julgamento também pode diminuir com o tempo, acompanhada da redução da velocidade de processamento das informações. Outra razão para o conservadorismo é que a pessoa já conhece muito da vida e pode acionar o piloto automático diante de algo novo, dando pouco espaço para improvisações ou mudança de atitude.

Evidentemente essa análise é genérica e um pouco reducionista, pois cada pessoa é um universo e está sujeita a inúmeros outros fatores que determinam sua posição na vida, seja ela conservadora ou progressista.

Acredito que abrir-se para o novo não significa aceitar tudo o que aparece, mas ter senso crítico, livre de preconceitos e ser capaz de diferenciar o que tem valor, do que é a “modinha” do momento.

É por essas e outras que não consigo entender a onda conservadora, quase um tsunami, que vem se espraiando por todo canto. São muitas as frentes dessa “ideologia”: o crescente movimento anti-vacinação, a negação das conquistas da ciência, o apoio a lideranças messiânicas, a desvalorização dos direitos humanos, o capital acima de tudo ou a negligência com o meio ambiente.

Quando tinha uns 40 anos, e pensava no meu futuro, imaginava que não queria ser o velhinho gagá, nem o doidinho da rua, muito menos o tiozão que fala besteira no churrasco. Sempre mirei no modelo dos anciãos indígenas que, além de envelhecerem, se tornaram sábios.

O objetivo é reconhecer que as convenções sociais existem, mas que seu alcance é limitado. Elas não podem engessar o pensamento, tampouco nos blindar contra o novo. O esforço é manter o senso crítico, alimentado pela vivência, leitura e escuta do outro, pois sem Humanismo estaremos fadados à barbárie. A interação com outras gerações pode ajudar a manter o cérebro ativo, atualizado e jovem.

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Roberto Junior Monteiro, 63 anos, é jornalista e atua em jornalismo rural. Seus interesses passeiam por áreas diversas: Botânica, Cinema, Yoga, Meditação, Música, Desenho e Línguas. Ultimamente tem se dedicado a refletir sobre os desafios do envelhecimento.E-mail: rjrmonteiro@hotmail.com

* Todo o teor textual e de imagens publicados nesta coluna são responsabilidade deste colunista.

 

 

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