O Cinema sempre me deu boas lições e me obrigou a refletir sobre muitas questões existenciais. Nos anos 80 eu não era mais que um adolescente, mas vivia lendo e vendo tudo o que achava importante nas salas de exibição da cidade onde morava, Maringá. Foi nesta época que um filme serviu de gatilho para eu fazer uma grande mudança de comportamento.
Era 1981 e eu fui ver “Num lago dourado”, com Henry Fonda, Katharine Hepburn e Jane Fonda. Sob a direção de Mark Rydell, o elenco contava a história do relacionamento difícil do pai, já octogenário, com a filha. À época muitos críticos observavam que a representação continha muitos dos conflitos reais dos Fonda.
Fui ver o filme com uma amiga mais velha, ela deveria ter uns 30 anos. Depois, conversamos a respeito. Ela me falou sobre o embate que teve com o pai evangélico, ao engravidar ainda solteira. A expulsão de casa, o relacionamento difícil com o pai da criança e a tentativa de consertar sua vida.
No fim, minha amiga me disse que estava tentando se reaproximar do pai e que as coisas iam caminhando muito bem. Ela pediu desculpas e reconheceu seus erros. Algumas frases ficaram martelando na minha cabeça: “quando há algum problema, 50% da responsabilidade é nossa. E não temos todo tempo do mundo para resolver os conflitos. É preciso encarar essas diferenças o quanto antes”.
Pensei muito e fui investigar o que me incomodava. Aí, claro, veio a figura do meu pai. Sempre me dei muito bem com ele, mas a identificação maior era com a minha mãe. Então, ao longo do tempo fui me distanciando do meu pai. Conversava pouco com ele, não ficava muito à vontade para puxar uma conversa.
Como eu estava com 18 anos e achava que estava perdendo tempo por não me aproximar do meu pai, um dia decidi mudar esse estado de coisas. Meus pais moravam numa cidade vizinha, de um telefone público liguei para casa. Minha mãe atendeu e dei o relatório das atividades da semana. Pedi para falar com meu pai. Ela achou estranho, mas passou o telefone para ele. Conversamos durante um bom tempo. Perguntei como ele estava, o que estava fazendo, como ia o trabalho e o Corinthians.
E foi assim, que um filme fez minha cabeça e me ajudou a tirar uma pedra do meu passado. Nunca mais deixei de conversar com meu pai, de abraça-lo e beijá-lo. Ele e minha mãe eram meus maiores ídolos e nosso relacionamento sempre foi amistoso.
Meu pai e eu
Conto essa história porque muitas vezes nos distanciamos de quem gostamos por orgulho. Aprendi que às vezes é preciso pedir desculpas, mesmo que você esteja convicto de que tem 100% de razão numa discussão. A vida é muito breve para você guardar ressentimentos. Tudo passa muito rápido e cultivar boas relações é importante para nossa saúde mental.
Acho que até mesmo as relações tóxicas precisam ser tratadas com mais honestidade. Eu já me desliguei totalmente de gente que me fazia mal, não sem antes explicar a razão do meu distanciamento. Tem funcionado.
Resolver nossos conflitos mais íntimos é a única forma de levar uma vida leve e plena. Se o Natal tem algum significado há de ser o renascimento. Então, esta é uma boa prática para os próximos dias, rever nossas relações e transformá-las num combustível a mais para enfrentar os anos que estão por vir.
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